As reações à tarifa de Trump contra Brasil: bolsonaristas ‘traidores’ x ‘vexame’ de Lula
Source: BBC | Original Published At: 2025-07-10 04:19:24 UTC
Key Points
- Trump impõe tarifa de 50% sobre produtos brasileiros em resposta à perseguição a Bolsonaro
- Conflito político interno no Brasil entre governistas e bolsonaristas sobre responsabilidades
- Lula convoca reunião de emergência e ameaça retaliação via Lei de Reciprocidade Econômica
- Eduardo Bolsonaro atua nos EUA para obter sanções ao ministro Alexandre de Moraes
- Análise internacional critica uso de tarifas como intervenção política nos EUA
Bolsonaristas ‘traidores’ x ‘vexame’ de Lula: as reações à nova tarifa de Trump contra Brasil
Crédito, Getty Images Legenda da foto, Eduardo Bolsonaro se mudou para EUA para pressionar governo americano por medidas envolvendo o Brasil
Há 5 horas
Além de impacto na economia, a nova taxa de 50% sobre produtos brasileiros anunciada pelo presidente americano, Donald Trump, também repercutiu imediatamente no mundo político e institucional brasileiro.
Em tom duro, a carta de Trump diz que a decisão é uma resposta à perseguição que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estaria sofrendo no Brasil, devido ao processo criminal que enfrenta no Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado.
Deputados e senadores alinhados ao governo e à oposição repercutiram a decisão de Trump. Do lado dos bolsonaristas, o tom geral foi o de culpar a suposta perseguição a Bolsonaro e o governo Lula pela nova taxa de Trump. Já os governistas argumentam que os bolsonaristas agem para prejudicar o Brasil.
Diante da decisão de Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) convocou uma reunião de emergência com sua equipe de ministros.
Nas redes sociais, Lula declarou que “o processo judicial contra aqueles que planejaram o golpe de estado é de competência apenas da Justiça Brasileira e, portanto, não está sujeito a nenhum tipo de ingerência ou ameaça que fira a independência das instituições nacionais”.
No texto, Lula também refutou que a relação comercial seja desfavorável aos EUA e defendeu que a liberdade de expressão no Brasil “não se confunde com agressão ou práticas violentas”.
“Qualquer medida de elevação de tarifas de forma unilateral será respondida à luz da Lei brasileira de Reciprocidade Econômica. A soberania, o respeito e a defesa intransigente dos interesses do povo brasileiro são os valores que orientam a nossa relação com o mundo”, finalizou o presidente brasileiro.
No X, Bolsonaro publicou uma indireta com um versículo bíblico: “Quando os justos governam, o povo se alegra. Mas quando os perversos estão no poder, o povo geme”, escreveu citando Provérbios.
Confira a seguir o que disseram autoridades e analistas sobre a medida de Trump.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador
Primeiro da família Bolsonaro a se manifestar, o senador escreveu no X que Lula “conseguiu ferrar o Brasil”.
“Depois de tantas ações provocando a maior democracia do mundo, tá aí o resultado do vexame da sua política internacional ideologizada”, escreveu Flávio.
Para o senador, a taxa de 50% de Trump “é a mesma coisa” que Lula tem feito com os brasileiros, “que não aguentam mais pagar tantos impostos”.
Flávio, porém, não creditou o anúncio de Trump à atuação de seu irmão, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se licenciou do cargo e se mudou para os EUA dizendo que se dedicaria a convencer o governo Trump a atuar pela anistia aos envolvidos nos ataques do 8 de janeiro no Brasil e para obter sanções ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
Eduardo Bolsonaro é atualmente alvo de um inquérito no STF pelos crimes de coação, obstrução de investigação e abolição violenta do Estado Democrático de Direito por sua atuação nos EUA, acusações que ele rejeita.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado federal licenciado
Em carta enviada a Guga Chacra, da GloboNews assinada junto com o jornalista Paulo Figueiredo, o filho de Bolsonaro disse que “nos últimos meses, temos mantido intenso diálogo com autoridades do governo do presidente Trump — sempre com o objetivo de apresentar, com precisão, a realidade que o Brasil vive hoje”.
“A carta do presidente dos Estados Unidos apenas confirma o sucesso na transmissão daquilo que viemos apresentando com seriedade e responsabilidade.”
Os dois dizem que o STF e Alexandre de Moraes colecionaram “violações de direitos humanos contra jornalistas, contra cidadãos e residentes dos Estados Unidos” e também avançaram “sobre líder maior da oposição, o ex-presidente Jair Bolsonaro, negando-lhe garantias mínimas de legalidade, defesa e presunção de inocência na forma da farsa de um julgamento quase sumário em um tribunal de exceção”.
A carta segue dizendo que a dupla agiu “buscando evitar o pior”, com foco em aplicar sanções a Moraes.
“No entanto, recentemente, o presidente Trump, corretamente, entendeu que Alexandre de Moraes só pode agir com o respaldo de um establishment político, empresarial e institucional que compactua com sua escalada autoritária. O presidente americano entendeu que esse establishment também precisa arcar com o custo desta aventura.”
Flávio Dino, ministro do STF
Sem citar diretamente o anúncio de Trump, o ministro do STF Flávio Dino fez um post logo após a publicação da carta do presidente americano a Lula.
“Uma honra integrar o Supremo Tribunal Federal, que exerce com seriedade a função de proteger a soberania nacional, a democracia, os direitos e as liberdades, tudo nos termos da Constituição do Brasil e das nossas leis”, escreveu Dino, ao lado de uma foto do prédio do STF iluminado com as cores do Brasil.
Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), governador de São Paulo
O governador de São Paulo afirmou, nas redes sociais, que Lula colocou sua “ideologia acima da economia”.
“Tiveram tempo para prestigiar ditaduras, defender a censura e agredir o maior investidor direto no Brasil. Outros países buscaram a negociação. Não adianta se esconder atrás do Bolsonaro. A responsabilidade é de quem governa. Narrativas não resolverão o problema”, escreveu no X.
Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), governador de Goiás
Também cotado para a disputa presidencial, Caiado disse que Lula atacou o presidente dos Estados Unidos, “país que sempre foi nosso aliado”.
“Com as medidas tomadas pelo governo americano, Lula e sua entourage tentam vender a tese da invasão da soberania do Brasil. Mas Lula não representa o sentimento patriótico do nosso povo, e muito menos tem credenciais para defender a soberania brasileira”, publicou o governador de Goiás.
Romeu Zema (Novo-MG), governador de Minas Gerais
Zema foi outro governador presidenciável que se pronunciou. “As empresas e os trabalhadores brasileiros vão pagar, mais uma vez, a conta do Lula, da Janja e do STF”, afirmou no X.
“Ignorar a boa diplomacia, promover perseguições, censura e ainda fazer provocações baratas vai custar caro para Minas e para o Brasil.”
Ian Bremmer, cientista político
O cientista político americano e fundador da consultoria de risco Eurasia analisou em um post que os “Estados Unidos intervêm na política interna do Brasil, à medida que o presidente Trump anuncia tarifas de 50%, ’em parte devido aos ataques insidiosos do Brasil’ contra Jair Bolsonaro”.
Em seu texto, Bremmer avalia que “seria intolerável para os líderes políticos americanos (republicanos e democratas) se outro país tentasse fazer o mesmo com os Estados Unidos”.
Paul Krugman, Nobel de Economia
O economista americano destacou em texto intitulado “O programa de proteção de ditador de Trump” que o presidente americano “nem finge que há uma justificativa econômica”. “É tudo sobre punir o Brasil por julgar Bolsonaro.”
Esta não é a primeira vez que os Estados Unidos usa tarifas para fins políticos, destaca Krugman, mas, “agora, Trump tenta usar tarifas para ajudar um candidato a ditador”, em referência à acusação de tentativa de golpe contra Bolsonaro.
O economista ressalta que o gesto de Trump é “maligno” e “megalomaníaco” e mais um passo dos EUA na “espiral descendente” do país.
Fábio Wajngarten, advogado de Bolsonaro
O advogado e ex-secretário de comunicação de Bolsonaro atribuiu o anúncio de Trump ao fato de que o governo americano teria “visto com maus olhos” o encontro dos Brics no Brasil, em que a declaração final do bloco criticou políticas americanas, embora tenha evitado falar diretamente contra o presidente americano.
“O governo brasileiro por conta de sua patética e risível chancelaria teima em alinhar-se a países que tradicionalmente são inimigos ou no mínimo distantes dos EUA”, disse Wajngarten.
“Por fim, o alinhamento com grupos terroristas, que deveriam ser absolutamente combatidos e banidos por parte do governo brasileiro também contribui para referida decisão. Utilizar os Brics como teto também para a Venezuela em nada ajuda a melhorar a relação com os EUA. Não criem fantasmas e nem busquem terceirizar culpas.”
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Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do PT na Câmara
O deputado federal petista disse que a taxa é algo “gravíssimo”.
“Os vira-latas bolsonaristas conseguiram. Penso que Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Tarcísio [governador de São Paulo] devem estar muito felizes em prejudicar o Brasil, nossa economia e nossos empregos. Nós defendemos o Brasil e nossa soberania. Eles são uns traidores!”, declarou Farias.
Humberto Costa (PT-PE), senador
O petista escreveu que Bolsonaro “bate continência para a bandeira dos EUA e, junto com a sua turma, veste o boné de Trump, o cara que prejudica o Brasil com sobretaxas exorbitantes.”
“Isso é o bolsonarismo: jogar e torcer contra o Brasil”, disse Costa.
Jaques Wagner (PT-BA), senador
O senador pediu “respeito ao Brasil”e disse que a taxa ocorre após “pedido da família Bolsonaro”.
“O presidente norte-americano está confundindo a quem está se dirigindo. O Brasil não será quintal do país de ninguém. Quem decide a nossa vida somos nós. Que fique claro: o Brasil é dos brasileiros e não de capachos”, escreveu Wagner.
Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado federal
O deputado federal focou em dizer que “a culpa é do Lula” diante da nova taxa.
“Basta Lula ter diplomacia, parar de perseguir e o STF ficar no seu lugar, que a taxa não incidirá mais no Brasil”, escreveu Ferreira.
Filipe Barros (PL-PR), deputado federal
Presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Barros escreveu que a “culpa” pela sanção de Trump é de “todos os que perseguiram a direita”.
“Eles traíram a nossa nação, entregaram nosso destino a interesses estrangeiros, venderam a soberania nacional e nos colocaram na lista das nações menos democráticas do mundo”, declarou Barros.
Coronel Tadeu (PL-SP), deputado federal