Bolsonaro na Rússia: como visita a Putin pode afetar relação com EUA
Source: G1 | Original Published At: 2022-02-07 10:39:32 UTC
Key Points
- Bolsonaro visita Putin em meio a tensões EUA-Rússia sobre a Ucrânia
- EUA criticam a visita, considerando-a uma mensagem de apoio às ações russas
- Brasil justifica a viagem como discussão de temas bilaterais
- Relação Brasil-EUA já fragilizada desde o fim do governo Trump
- Viagem pode afetar status do Brasil como aliado militar extra-Otan dos EUA
O presidente Jair Bolsonaro ao lado do presidente da Rússia, Vladimir Putin, em imagem de 2019 — Foto: Divulgação/Palácio do Planalto
A decisão do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de visitar Vladimir Putin, na Rússia, em meados de fevereiro, abriu um novo flanco de tensões na relação com o governo dos Estados Unidos. À BBC News Brasil, profissionais da diplomacia americana chamaram a decisão do mandatário brasileiro de “insana” e “sem sentido”.
Embora Brasil e Rússia componham o bloco de emergentes Brics (junto com China, Índia e África do Sul) e mantenham relações comerciais e diplomáticas há tempos, a viagem de Bolsonaro ao país do Leste Europeu caiu mal para os americanos especialmente pelo momento em que ocorrerá.
EUA e Rússia protagonizam duro embate político internacional. De um lado, os russos estacionaram mais de cem mil soldados na fronteira com a Ucrânia e ameaçam invadir o país a qualquer momento se os americanos e seus aliados ocidentais não interromperem qualquer processo para a entrada da Ucrânia na Otan, a aliança militar do Atlântico Norte.
De outro lado, os americanos abastecem o governo ucraniano com armas e já deslocaram mais de 3 mil soldados para bases da Otan na Romênia e na Polônia. O risco é que a situação, que até agora gerou ásperas discussões na ONU e trocas de acusações de parte a parte, evolua para uma guerra na Europa.
É nesse contexto que Bolsonaro desembarcará em Moscou no dia 14 de fevereiro.
“É como assistir uma criança correndo na pista para tentar atravessar uma rodovia expressa e movimentada”, afirmou à BBC News Brasil um ex-alto diplomata americano, que já trabalhou no Brasil, a respeito da visita do presidente brasileiro à Rússia.
Na semana passada, oficiais do Departamento de Estado agiram para expressar claramente o descontentamento dos EUA com os planos brasileiros. Há dez dias, consultado pela BBC News Brasil, o Departamento de Estado afirmou, por nota, que “o Brasil tem a responsabilidade de defender os princípios democráticos e proteger a ordem baseada em regras, e reforçar esta mensagem para a Rússia em todas as oportunidades”.
A portas fechadas, diplomatas americanos disseram aos brasileiros que a viagem de Bolsonaro à Rússia passaria ao mundo uma mensagem de que o Brasil endossa as atitudes de Putin em relação à Ucrânia e de que o governo brasileiro é indiferente a ameaças de invasão de territórios alheios por potências.
O Brasil é atualmente um aliado militar extra-Otan dos Estados Unidos, status garantido ao país ainda na gestão do republicano Donald Trump. No ano passado, já no governo do democrata Joe Biden, os americanos afirmaram endossar que o Brasil se tornasse um parceiro global da Aliança Militar do Atlântico, o que aumentaria ainda mais acesso às Forças Armadas brasileiras a armamentos e treinamentos.
“Não é possível que o Brasil ignore o significado simbólico dessa viagem. Esse não é o momento de discutir relações bilaterais com a Rússia, enquanto eles ameaçam invadir seu vizinho. Claro que os Estados Unidos não estão felizes com o plano, assim como os europeus também não estão, porque sugere uma falta de respeito em relação às regras do jogo internacional, que historicamente o Brasil costumava defender”, afirmou à BBC News Brasil o ex-embaixador americano no Brasil Melvyn Levitsky, atualmente professor de relações internacionais da Universidade de Michigan.
O Itamaraty tem respondido aos americanos que a viagem estava pendente há mais de um ano – embora o convite de Putin tenha sido formalizado apenas em dezembro -, e que tratará estritamente de temas bilaterais.
A viagem ao leste europeu também contará com uma parada de Bolsonaro na Hungria, excluída por Biden do encontro pela democracia organizado pelos EUA em dezembro, já que Washington vê o governo conservador e direitista de Viktor Orban como distanciado dos princípios democráticos.
Orban é hoje um dos principais aliados internacionais de Bolsonaro. A entusiastas que o questionaram na frente do Palácio da Alvorada, o presidente brasileiro também elogiou as credenciais políticas de Putin: “Ele [Putin] é conservador sim. Eu vou estar mês que vem lá, atrás de melhores entendimentos, relações comerciais. O mundo todo é simpático com a gente”.
Analistas internacionais afirmam que a viagem à Rússia tem importância política doméstica para Bolsonaro, que quer mostrar aos eleitores brasileiros que não está isolado no mundo, como afirmam seus críticos. “Com a saída de Trump da Casa Branca, Bolsonaro perdeu seu principal aliado e tenta com a visita a Putin um realinhamento ideológico internacional. É claro que isso vai irritar ainda mais os EUA”, afirma Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais da Faap.
Há pouco mais de um ano, a relação entre brasileiros e americanos sofreu um forte abalo, depois que o republicano Donald Trump, considerado o maior aliado global do atual mandatário brasileiro, perdeu as eleições e acusou de fraude eleitoral seu opositor Joe Biden, sem provas. Bolsonaro endossou tais alegações de Trump e demorou semanas para parabenizar o novo presidente dos EUA, que, em troca, se recusa a conversar diretamente com o colega brasileiro desde que chegou à Casa Branca.
De lá pra cá, o Brasil tem sido pressionado pelos americanos a mudar sua postura em relação à questão do meio ambiente, já que combater o aquecimento global é uma prioridade da gestão Biden. Por outro lado, os EUA mantiveram o apoio para que o Brasil entrasse na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, uma prioridade para o governo Bolsonaro.
Um embaixador que acompanhou as discussões com os americanos sobre a viagem à Rússia afirmou que para o Brasil não há vantagens de se alinhar nesse momento com os americanos e cancelar a viagem. “Se eles acham que somos tão importantes, porque então o Biden não fala com nosso presidente?”, teria sido uma das respostas da diplomacia brasileira.
Apesar da retórica, no entanto, na segunda-feira passada (31/1), o Brasil acompanhou os Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU ao concordar que a questão Ucrânia deveria ser tratada no colegiado – contra a vontade dos russos.
No voto do país, no entanto, o embaixador brasileiro Ronaldo Costa fez questão de pontuar que o Brasil não endossa nem os exercícios militares russos nem as ameaças de sanções econômicas unilaterais dos americanos. E que manterá sua independência e defesa de saídas diplomáticas e multilaterais.
“Visitas bilaterais são normais, não implicam na violação de nenhuma regra internacional. Com o voto na ONU, o Brasil tentou deixar claro que a viagem à Rússia não deve ser tomada como a expressão de uma posição pró-Rússia. A questão está na oportunidade: os americanos estão fazendo um esforço para conter os ímpetos russos por meio de alianças, e queriam contar com o Brasil nesse bloco”, avalia o embaixador brasileiro Sérgio Amaral, que já comandou a embaixada em Washington.
A preocupação dos americanos com a questão Rússia/Ucrânia tem dominado a agenda internacional do país. E não só porque ela pode detonar uma guerra na Europa, mas porque os Estados Unidos enxergam no desafio russo uma contestação à atual ordem internacional.
“Estamos vivendo um processo de demarcação de linhas e territórios de influência pelas potências, que estão reavaliando as suas posições geopolíticas. E isso vai criando novas áreas de instabilidade. Os EUA vão tentando manter sua hegemonia e as regras do jogo do pós segunda guerra, que veta invasões e tomadas de território, enquanto a Rússia se vê prejudicada pela expansão da Otan. Dos 30 membros da aliança militar hoje, 14 são ex-repúblicas ou países de influência russa”, nota Amaral. Nesse xadrez global, estaria também a tensão entre China e Taiwan.
O grau de importância e de tensão do assunto transpareceu em um episódio entre os governos brasileiro e americano. Em meados de janeiro, depois de uma conversa com o chanceler Carlos França, o secretário de Estado americano Antony Blinken divulgou uma nota em que dizia que os dois países tinham “prioridades compartilhadas, incluindo a necessidade de uma resposta forte e unida contra novas agressões russas à Ucrânia”. O Itamaraty considerou que os americanos cruzaram uma linha com a afirmação, que não refletia o posicionamento brasileiro. O órgão veio a público com um “esclarecimento”, no qual defendia solução diplomática e pacífica e mostrava não se alinhar a nenhum dos lados.
Para Melvyn Levitsky, a viagem de Bolsonaro à Rússia “lançará mais uma sombra sobre a relação Brasil-EUA”. “Não acredito que haverá uma resposta imediata (dos americanos), mas a relação vai piorar, certamente, e Bolsonaro terá que responder – se (Brasil) se posicionou como um aliado militar extra-OTAN deveria se posicionar diante de Putin”, diz o ex-embaixador no Brasil. Bolsonaro já afirmou em entrevista à rede Record que não mencionará o assunto Ucrânia na visita a Putin.
Na última quinta (3), o secretário assistente de Estado para o Hemisfério Ocidental Brian Nichols afirmou em sessão no Congresso dos EUA que, “até onde sei”, não há planos para revogar o status de aliado militar extra-Otan do Brasil.
Mas diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que, a depender do que acontecer na viagem e caso Bolsonaro se reeleja em outubro, essa é uma possibilidade.
Segundo os americanos, a visita recente do presidente argentino Alberto Fernandéz a Putin também provocou descontentamento em Washington. Os diplomatas dos EUA afirmam que o convite russo para os mandatários de Brasil e Argentina são uma forma de mostrar aos americanos que ele também pode exercer poder na zona de influência americana por excelência e que não está tão isolado como o Ocidente gostaria.
Como Fernandez e Biden têm boa relação, os argentinos estariam agora, segundo fontes americanas, se esforçando para reverter o mal-estar. Isso não seria verdade no caso brasileiro. Para os americanos, pode custar caro.