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‘Na disputa com Trump, Lula está mais bem posicionado’, diz ex-embaixador dos EUA no Brasil

‘Na disputa com Trump, Lula está mais bem posicionado', diz ex-embaixador dos EUA no Brasil

Source: O Globo | Original Published At: 2025-07-11 12:12:23 UTC

Key Points

  • Trump usa tarifas para intervenção política no Brasil, considerado 'erro terrível' por Thomas Shannon
  • Medida visa interferir nas eleições presidenciais brasileiras de 2026
  • Lula pode capitalizar politicamente a situação apresentando-se como defensor das instituições
  • Brasil tem autoridade legal para resposta tarifária, incluindo em áreas como propriedade intelectual
  • Trump age unilateralmente, sem consulta a instituições diplomáticas tradicionais

A medida sem precedentes anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump , contra o Brasil é um erro, poderá ser capitalizada politicamente pelo governo Lula e se explica, essencialmente, pelo desejo do republicano de interferir nas eleições presidenciais brasileiras de 2026. Essas foram algumas das opiniões dadas por Thomas Shannon, ex-embaixador no Brasil durante governos do PT e ex-subsecretário do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado americano, em entrevista ao GLOBO.

— Esta decisão (sobre a tarifa de 50% contra o Brasil) reflete seu pensamento sobre Bolsonaro, sobre como ambos são, na visão de Trump, almas gêmeas — afirmou Shannon.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o senhor avalia as medidas anunciadas pelo presidente Donald Trump contra o Brasil?

O que Trump fez é uma dramática remodelação de sua política comercial tarifária. Até agora, ele vinha explicando o motivo de sua política tarifária relacionando-a à necessidade de nivelar o comércio, promover investimentos americanos, ter acesso igualitário em mercados externos, criar incentivos para a reindustrialização dos EUA, ou para tentar gerar novos acordos comerciais.

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No caso desta decisão sobre o Brasil, é a primeira vez que Trump usa as tarifas para fins políticos; a primeira vez que ele decide intervir em instituições democráticas de outros países, em processos judiciais e criminais, para tentar escolher um candidato presidencial. E ele está fazendo isso na segunda maior democracia e economia do Hemisfério Ocidental, e um tradicional parceiro dos EUA.

Uma medida sem precedentes…

Não vimos esse tipo de intervenção em outro país em um longo tempo.

Pode-se comparar com o envolvimento dos EUA em golpes militares na América Latina, nas décadas de 60 e 70?

De certa maneira, é verdade que não víamos este tipo de intervenção desde aquele período. Mas isso que vemos agora é diferente, no sentido de que a mensagem de Trump não está destinada a militares ou elites. Está destinada ao que ele acredita ser uma ampla base de apoio popular de Bolsonaro. Ele compara o que Bolsonaro está vivendo com o que ele, Trump, viveu.

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Acredito que Trump observa as eleições no Brasil em 2026 da mesma maneira que observou as eleições americanas em 2024. Ele acha que Lula é vulnerável como (Joe) Biden, e acha que Bolsonaro é a figura que pode consolidar o voto da extrema direita. Acha que o processo contra Bolsonaro busca fragmentar o voto da extrema direita.

Para enfrentar isso que ele acredita, Trump adota uma medida dramática, sem precedentes, porque quer mudar a dinâmica política dentro de um país que não conhece. Um erro terrível.

Quais podem ser as consequências desse erro?

Dependerá de como o Brasil vai responder. É interessante ver que Lula respondeu a Trump através da rede social X, usando as mesmas ferramentas que Trump. Isso mostra a natureza política de tudo isso, ambos estão jogando politicamente para amplos públicos.

Como vê a reação do Brasil?

Os brasileiros deixaram claro que têm autoridade legal para impor tarifas, podem responder, inclusive em áreas como propriedade intelectual. O Brasil está falando de uma resposta que pode ir além da ameaça americana. Isso cria espaço para os brasileiros para que possam decidir como querem responder. Acho uma resposta esperta até agora.

Politicamente, Lula pode capitalizar este embate com Trump. Pode apresentar a decisão sobre tarifas como algo que foi consequência do lobby dos Bolsonaro, e que a ideia de um líder enviar seu filho aos EUA para fazer lobby contra o Brasil, contra suas instituições, custará empregos, e será negativo dentro do Brasil. Isso complicará a política para Bolsonaro.

Lula pode se apresentar como o líder que defende as instituições e a economia, contra um ataque inesperado. Hoje, na disputa, Lula está mais bem posicionado, e tem mais flexibilidade para se mover. Trump, ao dizer que a ameaça é movida pelo processo contra Bolsonaro, não tem muito para onde ir.

Trump deu um tiro no pé?

Ele não acha isso… Acha que está beneficiando Bolsonaro e o processo político no Brasil, e que vai acabar se beneficiando. Mas está errado.

A medida contra o Brasil teve impacto negativo nos EUA?

Ainda não está claro. A guerra de tarifas está por todos os lados, contra China, Canadá, México. Esta é mais uma ameaça. A maioria dos americanos não entende do que Trump está falando.

O que move Trump é o desejo de que Bolsonaro seja novamente presidente?

Sim, basicamente é fazer seu candidato ganhar no ano que vem. O que representa uma dramática intervenção na política de um país. Os EUA já apoiaram lideranças estrangeiras, mas em silêncio. Trump é totalmente transparente, sua natureza é chocante. E tudo sai de sua cabeça, é ele quem aperta os botões. Não contam enviados, secretários de Estado. Ninguém.

O Brasil avalia, se a tensão escalar, convocar sua embaixadora nos EUA.

Chamar embaixadores é de outra época. Nos dias de hoje não funciona assim. Trump vai demitir 15% dos funcionários do Departamento de Estado esta semana. As instituições que entenderiam uma medida como essa serão congeladas. Tem sido tão difícil para o Brasil ter linhas de comunicação com este governo que eu recomendaria usar esta situação para abrir canais.

A oposição de Trump ao Brics teve peso na decisão?

Trump passou os primeiros meses de seu segundo mandato sem falar sobre o Brasil. Houve alguma conversa sobre decisões do STF sobre liberdade de expressão. Mas só. Trump disse que não gosta do Brics, e durante a cúpula ameaçou taxar com 10% países aliados ao grupo. Mas foi cuidadoso em não atacar individualmente países.

Esta decisão reflete seu pensamento sobre Bolsonaro, sobre como ambos são, na visão de Trump, almas gêmeas. O gatilho foi esse, o fato de ambos terem, para Trump, sofrido a mesma coisa. Trump entende que o Brasil é parte importante de um movimento global de nacionalismo econômico, isso vem da época em que teve contato com Olavo de Carvalho e conheceu Bolsonaro.

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