Tarifaço de Trump: Lula diz que países do Brics são ‘vítimas’ de práticas ilegais e ‘chantagem tarifária’
Source: O Globo | Original Published At: 2025-09-08 17:12:55 UTC
Key Points
- Lula critica tarifas unilaterais de Trump como 'chantagem' e 'práticas ilegais'
- BRICS reafirma compromisso com multilateralismo e reforma de instituições internacionais
- Países do bloco representam 40% do PIB global e 50% da população mundial
- Discusão sobre soberania digital e governança tecnológica multilateral
- Reunião ocorre em contexto de julgamento de Bolsonaro e tensões comerciais EUA-BRICS
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A fala ocorreu durante reunião virtual dos membros dos Brics na manhã desta segunda-feira. Lula chamou uma conversa com líderes do bloco e o seu discurso foi divulgado pelo Palácio do Planalto.
— Nossos países se tornaram vítimas de práticas comerciais injustificadas e ilegais. A chantagem tarifária está sendo normalizada como instrumento para conquista de mercados e para interferir em questões domésticas. A imposição de medidas extraterritoriais ameaça nossas instituições. Sanções secundárias restringem nossa liberdade de fortalecer o comércio com países amigos — discursou Lula durante a reunião virtual, acrescentando que “dividir para conquistar é a estratégia do unilateralismo”.
Trump apontou questões domésticas, como o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, como parte das justificativas para decretar a tarifaça de 50% sobre produtos brasileiros.
Em seu discurso, Lula disse que os “pilares da ordem internacional criada em 1945” após a Segunda Guerra Mundial “estão sendo solapados de forma acelerada e irresponsável” e afirmou que a Organização Mundial do Comércio está paralisada há anos.
— Em poucas semanas, medidas unilaterais transformaram em letra morta princípios basilares do livre-comércio como as cláusulas de Nação Mais Favorecida e de Tratamento Nacional. Agora assistimos ao enterro formal desses princípios — disse. — Cabe ao Brics mostrar que a cooperação supera qualquer forma de rivalidade.
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O presidente brasileiro afirmou que regras e normas mutuamente acordadas são essenciais para o desenvolvimento, disse que o comércio e a integração financeira entre os países do Brics oferecem opção segura para mitigar os efeitos do protecionismo. E citou complementaridades econômicas dos membros do bloco.
— Juntos, representamos 40% do PIB global, 26% do comércio internacional e quase 50% da população mundial. Temos entre nós grandes exportadores e consumidores de energia — disse. — Temos, portanto, a legitimidade necessária para liderar a refundação do sistema multilateral de comércio em bases modernas, flexíveis e voltadas às nossas necessidades de desenvolvimento.
Para o brasileiro, os membros do Brics precisam chegar unidos na 14ª Conferência Ministerial da OMC no próximo ano, no Cameroun.
‘Soberania digital’
O presidente disse ainda que há uma “lacuna central” na arquitetura multilateral referente ao mundo digital.
— Sem uma governança democrática, projetos de dominação centrado em poucas empresas de alguns países vão se perpetuar. Sem soberania digital, seremos vulneráveis à manipulação estrangeira. Isso não significa fomentar um ambiente de isolacionismo tecnológico, mas fomentar a cooperação a partir de ecossistemas de base nacional, independentes e regulados.
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Multilateralismo
Em nota, o Palácio do Planalto disse que o Brics “reafirmou seu compromisso com a preservação e o fortalecimento do multilateralismo, bem como com a reforma das instituições internacionais”.
O Palácio afirma que os países do bloco realizaram um balanço abrangente da atual situação mundial.
“Houve consenso sobre a necessidade de avançar rumo a uma ordem internacional mais justa, equilibrada e inclusiva, capaz de refletir as transformações em curso e responder de maneira mais eficaz às demandas do Sul Global”, diz o texto, acrescentando que a reunião também discutiu como ampliar os mecanismos de solidariedade, coordenação e comércio entre os países do Brics.
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Participaram da cúpula virtual os líderes de China, Egito, Indonésia, Irã, Rússia, África do Sul, além do príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos, do chanceler da Índia e do Vice-Ministro das Relações Exteriores da Etiópia.
Dois meses após cúpula do Rio
A conversa aconteceu cerca de dois meses depois de os líderes do Brics se encontrarem no Rio de Janeiro. O Brasil, como presidente do grupo em 2025, convocou a reunião alegando preocupação com a defesa do multilateralismo. A avaliação é que o quadro internacional se deteriorou.
Entre os assuntos da agenda do Brics estão o tarifaço promovido pelos Estados Unidos, a situação na Faixa de Gaza, a guerra entre Rússia e Ucrânia, a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a conferência mundial sobre mudanças climáticas, a COP30, que acontecerá no próximo mês de novembro, em Belém (PA).
O discurso de Lula foi preparado com o cuidado. Isso porque a reunião acontece à margem do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por tentativa de golpe.
O presidente americano, Donald Trump já deixou claro que só aceita negociar com o Brasil o fim da sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros se o processo contra Bolsonaro for arquivado, mas o governo Lula avisou que não cederá à interferência da Casa Branca em assuntos internos.
Trump também jamais simpatizou com o Brics. Afirma que o bloco é contra os EUA e ameaça adotar novas sobretaxas, caso os países do bloco passem a buscar formas de reduzir a dependência do dólar no intercâmbio de bens e serviços.