Trump declara que EUA estão em ‘conflito armado’ com cartéis de drogas: PCC e CV entrarão na mira?
Source: O POVO | Original Published At: 2025-10-03 17:14:08 UTC
Key Points
- Trump considera cartéis de drogas como grupos armados não estatais equivalentes a organizações terroristas.
- Especialistas avaliam possibilidade de classificação do PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA.
- Medida pode estar ligada a retaliações por condenação de Bolsonaro por golpe de Estado.
- Lula critica presença militar dos EUA no Mar do Caribe, considerando-a fator de tensão.
- Dúvidas sobre legalidade da medida e impacto em relações internacionais persistem.
O documento afirma que o presidente Trump considera os cartéis de drogas grupos armados não estatais e que suas ações equivalem a “um ataque armado contra os Estados Unidos”.
“O presidente determinou que os Estados Unidos estão envolvidos em um conflito armado com essas organizações terroristas designadas”, afirma o documento, conforme relatado pela Reuters.
“O presidente instruiu o Departamento de Guerra a conduzir operações contra eles de acordo com a lei de conflitos armados”, acrescenta o memorando, usando o nome preferido de Trump para o Departamento de Defesa.
O texto parece ser uma justificativa para o uso da força contra cartéis de drogas, que o governo Donald Trump acusa de inundar as ruas dos Estados Unidos com cocaína e fentanil.
De acordo com o direito internacional, durante um conflito armado, um país pode legalmente matar combatentes inimigos, mesmo quando eles não representam uma ameaça.
Mas persistem dúvidas sobre a legalidade dessa medida.
Geoffrey S. Corn, um procurador-geral aposentado que anteriormente foi conselheiro sênior do Exército, disse ao The New York Times que os cartéis de drogas não estavam envolvidos em “hostilidades” contra os Estados Unidos porque vender um produto perigoso é diferente de enfrentar um ataque armado.
Trump pode declarar PCC organização terrorista?
O memorando de Trump ao Congresso americano é de interesse do Brasil, pois especialistas em risco político avaliam que existe a possibilidade de o governo americano classificar facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
A medida pode ser adotada como parte das retaliações americanas pela condenação de Jair Bolsonaro (PL) por golpe de Estado, segundo um relatório publicado pela consultoria Eurasia no início de setembro.
Em entrevista à BBC News Brasil, o diretor-executivo para as Américas do grupo Eurasia, Christopher Garman, disse que a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas não parece ser uma decisão iminente, mas pode ocorrer nos próximos meses.
“O desafio de quando você denomina PCC e CV como organização terrorista é que tem que identificar quais grupos estão ajudando essas organizações. E, dado o tamanho, a sofisticação e a entrada desses grupos no setor privado, não é fácil”, observou Garman.
“Se estendermos o horizonte nos próximos seis a oito meses, acho que a probabilidade aumenta”, afirmou.
Tido como a maior organização criminosa do país, o PCC é suspeito de estar envolvido na recente onda de adulteração de bebidas por metanol, além de estar por trás do assassinato a tiros, em 15 de setembro, do ex-delegado-geral de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, em Praia Grande, na Baixada Santista.
O governo Trump já inclui em sua lista de organizações terroristas outros grupos criminosos latino-americanos, como o venezuelano Tren de Aragua e seis cartéis mexicanos.
Garman, da Eurasia, salientou que o governo Trump está muito focado no combate ao narcotráfico na região, um tema que também é relevante para fins eleitorais domésticos.
“A presença naval na costa da Venezuela é sinal disso”, ressaltou.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou em setembro o envio de forças militares americanas para o Mar do Caribe.
“[O terrorismo] não pode ser confundido com os desafios de segurança pública que muitos países enfrentam. São fenômenos distintos e que não devem servir de desculpa para intervenções à margem do direito internacional”, disse o presidente brasileiro em reunião virtual entre líderes do grupo Brics no dia 8 de setembro.
“A presença de forças armadas da maior potência do mundo no Mar do Caribe é fator de tensão incompatível com a vocação pacífica da região”, afirmou Lula.
Em caráter reservado, diplomatas mencionam o temor de que os Estados Unidos utilizem o combate ao narcotráfico e a classificação de grupos como terroristas para justificar operações militares na região.