Trump declara que EUA estão em ‘conflito armado’ com cartéis de drogas: PCC e CV entrarão na mira?
Source: BBC | Original Published At: 2025-10-03 20:37:30 UTC
Key Points
- EUA realizam quarto ataque a embarcações no Caribe, alegando combate ao narcotráfico
- Memorando vazado revela que governo Trump declara "conflito armado" com cartéis de drogas
- Possibilidade de EUA classificarem PCC e CV como organizações terroristas
- Ataques geram críticas por violação do direito internacional
- Líderes do Brics condenam presença militar dos EUA no Caribe
Os Estados Unidos afirmam ter atingido nesta sexta-feira (3/10) um barco em águas internacionais na costa da Venezuela, matando quatro pessoas.
Na quinta-feira (2/10), um memorando vazado enviado ao Congresso americano – e divulgado pela imprensa local – revelou que o governo americano decidiu que está em um “conflito armado não internacional” com cartéis de drogas.
O Secretário de Guerra americano, Pete Hegseth, disse que o navio atingido nesta sexta-feira transportava “quantidades substanciais de narcóticos” e que as pessoas a bordo seriam “narcoterroristas”.
Os ataques americanos a embarcações no Caribe têm sido condenados por países como Venezuela e Colômbia, com alguns juristas internacionais descrevendo-os como uma violação do direito internacional.
Trump não apresentou o motivo pelo qual está categorizando o tráfico de drogas e crimes associados como um “ataque armado”, nem nomeou quais cartéis ele acredita estarem atacando os EUA.
Na quinta-feira, Trump anunciou que os Estados Unidos estão envolvidos em um “conflito armado” com cartéis de drogas, que ele agora considera “combatentes legais”, de acordo com um documento confidencial obtido pela imprensa.
O documento afirma que Trump considera os cartéis de drogas grupos armados não estatais e que suas ações equivalem a “um ataque armado contra os EUA”.
“O presidente determinou que os Estados Unidos estão envolvidos em um conflito armado com essas organizações terroristas designadas”, afirma o memorando, conforme relatado pela agência Reuters.
Na terça-feira (30/9), Trump afirmou que seu governo está considerando atacar as operações de cartéis de drogas “que chegam por terra” aos EUA vindos da Venezuela.
No último mês, os EUA realizaram uma grande operação militar no Caribe, perto da costa da Venezuela.
As autoridades americanas apresentaram a mobilização como uma ação antidrogas contra o Tren de Aragua, designado como “organização terrorista” pelo governo Trump em fevereiro, e o Cartel de los Soles, uma suposta organização de tráfico de drogas que, segundo Washington, envolveria oficiais de alta patente e ex-oficiais das Forças Armadas da Venezuela e seria liderada pelo presidente Nicolás Maduro.
O governo Maduro nega as acusações e acusa os EUA de usar a questão do tráfico de drogas como desculpa para pressionar por uma mudança de regime na Venezuela.
Os ataques dos Estados Unidos a embarcações no Caribe foram chocantes em sua escala e geraram críticas generalizadas.
De acordo com especialistas consultados pela BBC, eles podem ter violado o direito internacional.
Geoffrey S. Corn, um procurador-geral aposentado que anteriormente foi conselheiro sênior do Exército, disse ao The New York Times que os cartéis de drogas não estavam envolvidos em “hostilidades” contra os Estados Unidos porque vender um produto perigoso é diferente de enfrentar um ataque armado.
O memorando de Trump ao Congresso americano é de interesse do Brasil, pois especialistas em risco político avaliam que existe a possibilidade de o governo americano classificar facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Em entrevista à BBC News Brasil, o diretor-executivo para as Américas do grupo Eurasia, Christopher Garman, disse que a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas não parece ser uma decisão iminente, mas pode ocorrer nos próximos meses.
“O desafio de quando você denomina PCC e CV como organização terrorista é que tem que identificar quais grupos estão ajudando essas organizações. E, dado o tamanho, a sofisticação e a entrada desses grupos no setor privado, não é fácil”, observou Garman.
“Se estendermos o horizonte nos próximos seis a oito meses, acho que a probabilidade aumenta”, afirmou.
Tido como a maior organização criminosa do país, o PCC é suspeito de estar envolvido na recente onda de adulteração de bebidas por metanol, além de estar por trás do assassinato a tiros, em 15 de setembro, do ex-delegado-geral de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, em Praia Grande, na Baixada Santista.
O governo Trump já inclui em sua lista de organizações terroristas outros grupos criminosos latino-americanos, como o venezuelano Tren de Aragua e seis cartéis mexicanos.
“[O terrorismo] não pode ser confundido com os desafios de segurança pública que muitos países enfrentam. São fenômenos distintos e que não devem servir de desculpa para intervenções à margem do direito internacional”, disse o presidente brasileiro em reunião virtual entre líderes do grupo Brics no dia 8 de setembro.
“A presença de forças armadas da maior potência do mundo no Mar do Caribe é fator de tensão incompatível com a vocação pacífica da região”, afirmou Lula.
Em caráter reservado, diplomatas mencionam o temor de que os Estados Unidos utilizem o combate ao narcotráfico e a classificação de grupos como terroristas para justificar operações militares na região.