Um alvo oculto das tarifas de Trump para o Brasil
Source: Folha de S.Paulo | Original Published At: 2025-08-20 10:00:00 UTC
Key Points
- Tarifas de Trump visam pressionar o sistema judiciário brasileiro sobre o caso Bolsonaro
- Pix é identificado como ameaça à hegemonia do dólar e ao setor financeiro tradicional
- EUA temem impacto de sistemas de pagamento digitais soberanos no domínio financeiro global
- Brics discute alternativas como o Brics Pay para contornar o sistema financeiro dos EUA
São Paulo | Project Syndicate
A tarifa de 50% sobre muitas exportações brasileiras para os Estados Unidos é uma das taxas mais altas que o presidente Donald Trump impôs como parte de sua guerra comercial global. Trump declarou claramente que a taxa paralisante é uma tentativa de intimidar o sistema judiciário do Brasil para que interrompa o processo criminal contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro por incitar um golpe fracassado em 2023. Para enfatizar esse ponto, o governo impôs sanções a Alexandre de Moraes, juiz da Suprema Corte brasileira que está supervisionando o julgamento de Bolsonaro.
No entanto, o ataque flagrante de Trump às instituições democráticas do Brasil tem como objetivo não só submeter o poder judiciário de um país soberano à sua vontade, mas também repelir um desafio crescente à ordem financeira denominada em dólares. Pouco depois de Trump ameaçar o Brasil com uma tarifa de 50%, os EUA lançaram uma investigação formal sobre as práticas comerciais “injustas” do país, com foco no comércio digital e nos serviços de pagamento eletrônico. Isso implica que o Pix, sistema de pagamento digital instantâneo do Brasil, é uma ameaça à visão de poder de Trump.
O presidente Donald Trump no dia em que anunciou o início da guerra tarifária contra diversos países – Carlos Barria – 02.abr.2025/Reuters
O Pix, desenvolvido e operado pelo Banco Central do Brasil, revolucionou a forma como os brasileiros pagam contas e transferem dinheiro, com pelo menos 76% da população usando o serviço. Como o economista ganhador do Prêmio Nobel Paul Krugman apontou recentemente, o Pix está rapidamente substituindo o dinheiro e os cartões, pois oferece transações instantâneas e é gratuito para as pessoas físicas (e as taxas para os comerciantes são muito menores do que as pagas pelos métodos de pagamento tradicionais). O lançamento em breve do recurso “Pix Parcelado”, que permitirá que os usuários paguem em parcelas, pode representar uma ameaça ainda maior para o setor de cartões de crédito —especialmente para as gigantes americanas Visa e Mastercard.
O Pix oferece muito mais do que conveniência: é um passo em direção à criação de um novo tipo de sistema monetário, no qual bancos comerciais, como os conhecemos, podem se tornar obsoletos. Esse não é o tipo de inovação que Trump gosta, a menos que venha de um de seus aliados da Big Tech.
Mas há outra preocupação com implicações mais amplas: o declínio progressivo do domínio do dólar. Após a Segunda Guerra Mundial, o dólar se tornou a moeda incomparável do comércio e das finanças globais. Esse “privilégio exorbitante” permitiu que os EUA tomassem empréstimos livremente em sua própria moeda, financiassem guerras e inovações e mantivessem sua vantagem geopolítica. Mas esse privilégio foi corroído nas últimas décadas —em parte por causa do próprio Trump.
A normalização das sanções teve papel importante nessa mudança. O que começou como prática seletiva no século 20 se intensificou após os ataques de 11 de setembro, como medida antiterrorista. Na década de 2010, as sanções econômicas se tornaram a pedra angular da política externa dos EUA. Adversários dos EUA, como Irã, Venezuela e Rússia, foram submetidos a sanções abrangentes (especialmente no primeiro mandato de Trump), sendo que alguns até foram excluídos do sistema de mensagens financeiras Swift, dominado pelo Ocidente, para pagamentos internacionais. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, os EUA e seus aliados europeus congelaram reservas do banco central russo e ampliaram sanções secundárias, o que acelerou esforços globais para achar alternativas ao dólar e ao sistema financeiro dos EUA.
Enquanto isso, a posição fiscal dos EUA deu uma guinada perigosa, com a dívida federal subindo de US$ 19,8 trilhões no início da presidência de Trump em 2017 para US$ 28,1 trilhões em janeiro de 2021. Sob o comando de Joe Biden, ela passou de US$ 36,2 trilhões em janeiro de 2025 —dos quais mais de 30% são detidos por investidores estrangeiros e internacionais. Espera-se que a One Big Beautiful Bill Act de Trump —combinando cortes de impostos para ricos, reduções profundas nos gastos sociais e desregulamentação— acrescente cerca de US$ 3,4 trilhões na próxima década, reforçando a crescente inquietação dos credores estrangeiros já cautelosos sobre o caminho fiscal dos Estados Unidos.
A desdolarização tem sido objeto de discussão global há muito tempo, como testemunhei em primeira mão quando representei o Brasil nas diretorias executivas do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Por muitos anos, os países agiram de forma cautelosa e silenciosa, porque desfazer suas posições no dólar muito depressa poderia derrubar o valor dos ativos denominados em dólar e provocar perdas de trilhões. Mas o ataque indiscriminado de Trump ao livre comércio e o descaso com a desastrosa trajetória fiscal dos Estados Unidos parecem ter mudado o cálculo.
Os cinco primeiros membros do Brics —Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul— estão agora discutindo abertamente o Brics Pay, sistema descentralizado de mensagens financeiras projetado para facilitar o comércio em moedas locais. Embora sua implementação permaneça indefinida, o ímpeto está aumentando para a infraestrutura de pagamentos internacionais que contorna o sistema financeiro dos EUA e o dólar. O sucesso do Pix, bem como de outros sistemas de pagamento apoiados pelo governo, é um passo em direção a esse objetivo.
Quer ele entenda os aspectos técnicos ou não, Trump percebe essa mudança. Abrir uma investigação sobre o Pix é o movimento de um poder diminuído que se sente ameaçado e está desesperado para manter o controle. Trump e seus apoiadores financeiros veem o que está escrito na parede: se o mundo não precisar mais de dólares para negociar, os EUA perderão sua capacidade de sancionar, ditar e dominar. Mas ao mirar no Pix – e intimidar o Brasil -, Trump corre o risco de acelerar o fim da hegemonia global do dólar.