Reunião entre Haddad e secretário do Tesouro de Trump foi cancelada, diz ministro
Source: O Globo | Original Published At: 2025-08-11 16:38:32 UTC
Key Points
- Cancelamento da reunião virtual entre Fernando Haddad e Scott Bessent devido a pressões políticas
- Tarifa de 50% dos EUA sobre produtos brasileiros e impactos econômicos
- Críticas de Haddad à atuação de Eduardo Bolsonaro na relação bilateral
- Menciona conversas de Lula com líderes da Rússia, Índia e México sobre tarifas
- Necessidade de diversificação de parcerias comerciais além dos BRICS
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad , afirmou nesta segunda-feira que a reunião virtual com o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos , Scott Bessent, foi desmarcada após pressão de militantes ligados à Casa Branca. O encontro estava previsto para ocorrer nesta quarta-feira e, segundo ele, ainda não foi remarcado. A conversa telefônica entre Haddad e Bessent era vista como um fio de esperança por executivos do setor privado e integrantes do governo .
Em entrevista ao Estúdio i, da GloboNews, Haddad explicou que o diálogo com Bessent começou a ser articulado após o tarifaço de 50% anunciado pelos EUA no dia 9 de julho, que elevou impostos sobre produtos brasileiros.
As tratativas para o encontro começaram em 21 de julho, mas foram interrompidas na última semana.
— A militância que atua junto à Casa Branca agiu junto a alguns assessores, e a reunião que seria virtual foi desmarcada e não foi remarcada até agora — disse o ministro.
Ele ainda informou que a reunião foi cancelada dois dias após o anúncio do encontro com Bessent. Haddad ainda atribuiu o cancelamento da reunião ao deputado Eduardo Bolsonaro.
— Recebemos essa informação dois dias depois do anúncio que fiz. Em que o Eduardo publicamente deu uma entrevista dizendo que iria procurar inibir esse tipo de contato entre esses dois governos. Depois dessa entrevista, que houve esse episódio. Não há como não relacionar uma coisa à outra. Não há coincidência.
De acordo com Haddad, a justificativa oficial para o cancelamento foi “falta de agenda” — algo que classificou como “inusitado”. Ele acrescentou que o episódio “não se atém à Fazenda” e reforçou que, na sua avaliação, “a questão comercial não está em foco” para o governo norte-americano.
— Nós temos muitos interlocutores com quem nós falamos e a sensação que temos é essa — completou.
Segundo Haddad, na conversa que teve com Bessent em maio, antes da aplicação da sobretaxa de 40% sobre o Brasil, o secretário do Tesouro dos EUA se mostrou desconfortável com a tarifa de 10% que já havia sido anunciada em abril, e sinalizou para a negociação.
— Tanto é verdade que a tarifa para a América do Sul é 10%. O que é diferente do Brasil é que não tem ninguém do Uruguai fazendo campanha contra o Uruguai — disse, de novo em referência a Eduardo Bolsonaro.
— Até quando nós vamos ficar tentando nos enganar sobre o que está acontecendo de fato? O Brasil vai buscar um caminho que tem que ser perseguido, inclusive pela oposição, eles estão cometendo um erro, eles estão colocando a sua vaidade acima do Brasil. Para mim, é incompreensível essa atitude.
Haddad ainda disse que, se nenhuma medida for tomada em relação à atuação de Bolsonaro nos EUA, “vai ficar difícil”.
— Precisamos compreender que se nenhuma medida for tomada, inclusive pelo Congresso Nacional, isso vai ficar difícil.
O ministro refutou que uma ligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para Donald Trump seja “a chave de todas as portas”, como sugeriu o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
— Eu penso que a afirmação do governador é no mínimo um pouco ingênua, não funciona assim. Não estou querendo ofender ninguém. Quando dois chefes de estado se falam, existe preparação prévia.
Segundo Haddad, Lula tem mantido conversas com líderes de diversos países sobre o tarifaço, como Rússia, Índia e México. O petista ainda deve conversar com a China sobre o assunto, que classificou como “internacional”. O chefe da área econômica ponderou, ainda disse que os BRICS são importantes, mas que é necessário continuar diversificando os parceiros comerciais.
— Os BRICS são importantes, mas não é só dos BRICS que o Brasil vive. Então vamos ter que continuar diversificando e agora não é mais uma politica nacional. Todas as nações estão se procurando.
Pacote de “socorro”
Sobre o pacote de socorro aos setores afetados pelo tarifaço dos EUA, Haddad repetiu que deve ficar dentro da meta fiscal.
— Nós entendemos que o que nós estamos apresentando neste momento tem o tamanho necessário para enfrentar a situação — afirmou, em referência à abrangência das medidas.
Na avaliação do ministro, a sobretaxa de 50% pode ter efeitos deflacionários no país.
— Não acredito (que haja problema da inflação com relação ao tarifaço). Eu quero crer que nesse quesito nós estamos (governo e mercado) sintonizados, acredito que o que tem acontecido no Brasil pode ter efeitos deflacionários — afirmou, acrescentando que Lula tem compromisso com a redução da inflação.
— Nós estamos conseguido equilibrar a situação.
A sobretaxa do governo americano passou a vigorar na última quarta-feira. A medida estabeleceu uma tarifa adicional de 40% sobre produtos do Brasil, somando-se aos 10% anunciados em abril e elevando o total da tarifa para 50%.
Desde então, as equipes dos ministérios da Fazenda, Casa Civil, e da Indústria e Comércio estão fazendo os cálculos finais das medidas. A expectativa é de que o anúncio aconteça no início desta semana.