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Qual é o peso da Rússia na importação de diesel pelo Brasil? A importação pode virar novo alvo de Trump? Entenda

Qual é o peso da Rússia na importação de diesel pelo Brasil? A importação pode virar novo alvo de Trump? Entenda
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Source: O Globo | Original Published At: 2025-08-07 07:00:36 UTC

Key Points

  • Brasil importa 18% de seu consumo de diesel da Rússia (33,3 milhões de litros/dia)
  • Rússia liderou 61% das importações brasileiras de diesel no primeiro semestre de 2025
  • Tarifas dos EUA contra a Índia criam incertezas sobre possíveis sanções ao Brasil
  • Preço do diesel russo é 10-20% mais baixo que alternativas devido a sanções pós-invasão da Ucrânia
  • Petrobras vende diesel 6% abaixo da paridade internacional, complicando substituição de fornecedores

Após os Estados Unidos imporem uma tarifa adicional de 25% aos produtos vendidos pela Índia , em retaliação à compra de petróleo russo, o setor de combustíveis no Brasil elevou o nível de dúvidas, incertezas e preocupações entre presidentes de distribuidoras do país. Isso porque o diesel russo responde por cerca de 18% do consumo atual do combustível no Brasil.

Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), o consumo médio de diesel neste ano é de 185 milhões de litros por dia, dos quais 33,3 milhões de litros diários são oriundos da Rússia.

Como a Petrobras não consegue atender sozinha à demanda do país, cerca de 30% do consumo nacional precisa ser suprido via importações. Nos primeiros seis meses deste ano, a Rússia liderou a venda do combustível, somando 61% das importações feitas pelo Brasil, de acordo com cálculos da Abicom.

— A taxação extra imposta à Índia por conta do petróleo russo acende um alerta, embora a importação de óleo da Rússia pela Índia seja histórica, e não circunstancial como a nossa. A importação brasileira de diesel russo é um fenômeno mais oportunista, decorrente das sanções pela invasão da Ucrânia, que resultaram em sobra de diesel russo a preços menores — diz Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e especialista do setor de petróleo.

Prates, que está na Índia participando do Fórum Brasil-Índia, lembra que apenas as refinarias indianas privadas, como a Reliance (controlada por empresários indianos) e a Nayara (que tem a estatal russa Rosneft como acionista), importaram, no primeiro semestre deste ano, aproximadamente 1,75 milhão de barris de petróleo russo por dia — número que representa quase 40% do consumo nacional de petróleo.

— A Índia é um dos maiores importadores mundiais de combustíveis fósseis russos. Estamos no primeiro dia do Fórum Brasil-Índia e, já no jantar oferecido pela Câmara de Comércio Índia-Brasil à delegação brasileira, o que ouvi nas conversas com o empresariado indiano é que os nossos dois países precisam se conectar mais imediatamente para resistir a essas pressões de Trump e que essa talvez seja uma oportunidade — afirma Prates.

Sérgio Araújo, presidente da Abicom, associação que reúne os importadores de combustíveis, diz que o momento é de muitas incertezas no setor:

— Se o Brasil for obrigado a parar de importar diesel da Rússia, será necessário buscar novos fornecedores, como Estados Unidos, Arábia Saudita, Omã, Emirados Árabes Unidos, entre outros. Não será simples encontrar o volume necessário, e o custo deverá subir.

Segundo Araújo, o preço do diesel russo é mais baixo desde o início da guerra na Ucrânia, o que estimula as importações. De acordo com distribuidoras, a redução varia entre 10% e 20% em relação aos rivais.

O presidente de uma distribuidora privada, que não quis se identificar, lembra que buscar novos mercados esbarra na estratégia da Petrobras, que hoje vende diesel abaixo da paridade internacional. Segundo a Abicom, o preço do diesel da Petrobras é 6% menor em relação ao mercado internacional (R$ 0,21 por litro).

Para esse executivo, o mercado se questiona se a Petrobras vai assumir o papel de importadora para garantir o abastecimento nacional ou se continuará com sua política atual de preços abaixo da paridade internacional. A questão, diz ele, é que a Petrobras não tem a obrigação legal de garantir o abastecimento, já que esse papel cabe à Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Segundo o CEO de outra companhia, caso a Petrobras mantenha preços abaixo da paridade internacional, os importadores não conseguirão trazer diesel mais caro para o país, pois não haverá mercado.

Por outro lado, questiona ele, será que ela vai importar mais e vender a preços mais baixos, gerando um possível prejuízo? Por isso, dizem, não se pode descartar o risco de faltar combustível no Brasil, devido ao aumento esperado nos preços do diesel, com uma possível restrição ao produto russo.

Para Prates, o preço baixo do diesel russo, a recuperação da atividade econômica e o agronegócio impulsionaram a demanda pelo combustível, especialmente no Centro-Oeste e Sul:

— O fato de a Rússia ser a fornecedora dominante de diesel no Brasil não é por mérito exclusivo dos russos, mas por uma combinação de inércia regulatória e apetite comercial do setor privado. Sem diretrizes geopolíticas mais assertivas e uma política industrial para combustíveis, o mercado reagiu puramente por lógica econômica. Acho que o governo deveria monitorar melhor e com precisão a origem e o destino dos combustíveis importados. A partir disso, tentar diversificar fornecedores de diesel e reforçar o papel da Petrobras e da produção interna.

Prates lembra ainda que, embora o aumento do teor de biodiesel tenha como intenção reduzir a dependência de importações, o efeito foi o oposto, com alta nas importações, já que o biodiesel nacional está mais caro que o diesel fóssil importado.

Brasil e Índia são fundadores dos Brics — ao lado de China e Rússia —, alvo constante da retórica geopolítica de Trump. No caso da Índia, Trump impôs ontem 25% adicionais aos 25% estabelecidos em abril como tarifa recíproca pelo fato de o país comprar petróleo da Rússia. Na visão do republicano, nova Déli financia indiretamente o esforço de guerra de Vladmir Putin na Ucrânia.

O decreto contra a Índia, no entanto, abre espaço para que Trump puna outros países que tenham relações comerciais na área de energia com a Rússia, caso do Brasil.

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