Davos: medo de recessão e compromisso econômico do Brasil
Source: UOL | Original Published At: 2023-01-15 22:03:00 UTC
Key Points
- Brasil busca atrair investidores estrangeiros com compromisso fiscal e ambiental
- Ministros Haddad e Marina Silva destacam estabilidade institucional e agenda verde
- Fórum discute riscos globais como recessão, mudanças climáticas e fragmentação geopolítica
- Governadores estaduais também participam promovendo oportunidades regionais
Davos (Suiça) O encontro anual do Fórum Econômico Mundial começa nesta segunda (16) em Davos com neve, expectativas e um forte temor de recessão global por parte dos dos altos representantes de governos e empresas que fazem da cidade nos Alpes suíços seu ponto de encontro todo janeiro.
Para o Brasil, representado pelos ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Marina Silva (Meio Ambiente), é a chance de tentar vender o país como um destino seguro e atrativo para investidores externos em meio à reorganização das cadeias globais, afetadas pela Guerra da Ucrânia, quase três anos de pandemia e a combinação de inflação e desaceleração econômica nas principais economias do planeta.
O presidente Luiz Inácio Lula da SIlva (PT), celebrado em Davos em sua participação há 20 anos, abriu mão do convite para fazer dos vizinhos Argentina e Uruguai suas primeiras visitas internacionais, na próxima semana.
Segundo assessores do Ministério da Economia, Haddad pretende levar a mensagem de que o governo Lula, empossado há duas semanas, está “comprometido com um novo arcabouço fiscal”, com a responsabilidade econômica e com a questão ambiental, uma demanda crescente do fórum e do sistema econômico internacional.
Com os ataques golpistas de 8 de janeiro em Brasília por simpatizantes do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a demanda por conversas com o governo brasileiro cresceu. Haddad, segundo assessores, quer certificar representantes estrangeiros de que as instituições no país são sólidas e não estão ameaçadas pelo grave episódio.
O ministro também pretende explorar melhor, entre painéis, eventos com executivos e encontros bilaterais, a proposta de pacote fiscal que apresentou na última semana e com a qual pretende promover um ajuste de R$ 242,7 bilhões (economistas consultados pela Folha consideram metade deste montante factível) após a bomba fiscal deixada pelo governo anterior. Ele participará apenas dos três primeiros dias do encontro.
Seguranças vistoriam a principal entrada do centro de evetos que recebe o encontro do Fórum Econômico Mundial a em Davos, nos Alpes suíços, a partir desta segunda (16) – Arnd Wiegman/Reuters
Marina, por sua vez, foi apresentada pelo fórum com grande reverência e deve tratar sobretudo da Amazônia, ponto de preocupação externa ao longo do governo Bolsonaro. Ela e Haddad terão um painel especial no evento no início da tarde desta terça-feira (9h no horário de Brasília), além de outros debates com atores locais, como os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e do Equador, Guillermo Lasso.
Além da enxuta delegação federal, estarão no fórum com intuito semelhante os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Helder Barbalho (MDB-PA) e Eduardo Leite (PSDB-RS).
“Vamos para Davos mostrar o potencial do estado para o mundo, buscando investimentos que possam proporcionar ainda mais crescimento para São Paulo”, afirma Tarcísio, que desembarca neste domingo. “Além disso, vamos apresentar nesta primeira missão internacional uma moderna agenda de desenvolvimento com bases sustentáveis, reforçando o nosso compromisso com o protagonismo na Agenda Verde.”
À frente de organismos multilaterais, Ilan Goldfajn (Banco Internacional de Desenvolvimento) e Marcos Troyjo (Novo Banco de Desenvolvimento, o “banco dos Brics”), também estarão no encontro.
Em sua 53ª edição, após um ano apenas com encontros virtuais e outro em que os eventos foram transferidos para maio e tiveram quórum menor, o evento idealizado pelo economista Klaus Schwab em 1971 espera 30 chefes de Estado e governo (sobretudo europeus) e as lideranças dos principais organismos multilaterais, além de 53 ministros da Economia e de centenas de líderes empresariais, empreendedores sociais, ativistas, acadêmicos e jornalistas.
O tema que deve reger as cerca de 450 sessões para 2.700 participantes em cinco dias de evento na pequena cidade suíça é “Cooperação em um Mundo Fragmentado”.
Segundo a organização, trata-se de um incentivo ao diálogo e à cooperação em um momento em que “múltiplas crises dividem as sociedades e fragmentam o cenário geopolítico”. “As lideranças precisam lidar com as necessidades imediatas e cruciais da população ao mesmo tempo em que armam as bases para um mundo mais sustentável e resiliente até o fim desta década”, diz nota do fórum.
Traduzindo, o evento pretende aproximar figuras-chave do teatro global para lidar com crises presentes —notadamente o medo de uma recessão global iminente — e perenes (ambiente, principalmente). O cenário energético e o dilema diante da ameaça ambiental são especialmente preocupantes.
A Pesquisa Global de Percepção de Riscos 2023, produzida anualmente pelo fórum e para a qual foram ouvidos mais de 1.200 especialistas, mostrou preocupação com riscos recrudescentes como inflação, crises de custo de vida, guerras comerciais, saídas de capital de mercados emergentes, agitação social generalizada, confrontos geopolíticos e o espectro da guerra nuclear, acelerado pelo conflito entre Rússia e Ucrânia em pleno território europeu, que em fevereiro completará um ano.
A isso se somam altos níveis de endividamento, baixo crescimento, queda de investimento e desglobalização, o declínio no desenvolvimento humano após décadas de progresso, o irrestrito avanço do uso de tecnologias (tanto civis quanto militares) e a pressão crescente dos impactos das mudanças climáticas como fatores “relativamente novos” que estão sendo amplificados.
Os dois cenários, diz o estudo, convergem para formar um único, classificado como “turbulento”: “a próxima década será caracterizada por crises ambientais e sociais, impulsionadas por tendências geopolíticas e econômicas subjacentes”.