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Guedes diz que ‘ofensa’ não o tira do cargo, mas prefere sair se ‘tiver que empurrar Brasil pelo caminho errado’

Guedes diz que 'ofensa' não o tira do cargo, mas prefere sair se 'tiver que empurrar Brasil pelo caminho errado'
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Source: Jornal O Globo | Original Published At: 2021-03-02 15:04:54 UTC

Key Points

  • Guedes afirma que permanecerá no cargo enquanto tiver confiança de Bolsonaro e seguir os princípios econômicos
  • Defende privatizações de Petrobras, Correios e Eletrobras como necessárias para crescimento e investimentos
  • Alerta que falta de reformas pode levar Brasil a crises similares às da Argentina e Venezuela
  • Critica auxílio emergencial sem contrapartidas fiscais como 'caótico' e prejudicial à economia
  • Propõe compartilhar dividendos de empresas estatais com a população e congelar salários públicos

BRASÍLIA — O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou, em participação em um podcast gravado na sexta-feira e divulgado nesta terça, que é “demissível em 30 segundos” caso o presidente Jair Bolsonaro deixe de acreditar em seu trabalho, mas que enquanto estiver “ajudando o Brasil” e fazendo as coisas em que acredita, deve continuar. Segundo ele, ofensas não o tirariam do cargo.

— Se ele não confiar, eu sou demissível em 30 segundos. Se eu estiver conseguindo ajudar o Brasil, fazendo as coisas em que eu acredito, eu devo continuar. A ofensa não me tira daqui. O medo, o combate, o vento a chuva, isso não me tira daqui de jeito nenhum – afirmou o ministro, no podcast Primocast.

E acrescentou:

— O que me tira daqui é a perda da confiança do presidente ou ir para o caminho errado. Se eu tiver que empurrar o Brasil pelo caminho errado eu prefiro não empurrar, eu prefiro sair. Isso não aconteceu.

A declaração foi dada ao fim de uma semana marcada pelos desdobramentos da decisão de Bolsonaro de anunciar que o general Joaquim Silva e Luna substituiria Roberto Castello Branco no comando da Petrobras.

A demissão de Castello Branco, uma indicação de Guedes, de quem é amigo há anos, levou o mercado a desconfiar da continuidade de política de preços da empresa.

Privatizações

Na conversa, o ministro defendeu a transformação do estado brasileiro e afirmou que a dificuldade em implementar essas mudanças se dá porque “a mentalidade do brasileiro ainda está muito no passado”. Ele mencionou o bordão “o petróleo é nosso”, lembrado por Bolsonaro na semana passada e propôs compartilhar recursos de empresas públicas com a população.

– Tem uma turma que começa com “o petróleo é nosso”. É nosso? Então vamos dar para o povo brasileiro. Vamos pegar os dividendos da Petrobras e vamos entregar uma parte para o povo brasileiro.

Segundo Guedes, tirar da Petrobras o monopólio sobre exploração, refino e distribuição do petróleo é positivo porque trará preços mais competitivos e empregos. Da mesma forma, ele defende o processo de privatização dos Correios e Eletrobras.

– Para o Brasil crescer, precisamos investir em geração e transmissão de energia elétrica, e a Eletrobras perdeu a capacidade de investimento. Ela só consegue investir R$ 3 bilhões por ano, e o Brasil precisa de R$ 14,7 bilhões de investimentos todo ano. Então, ela está morrendo lentamente porque não tem capacidade de investimento.

Na avaliação de Guedes, caso a empresa consiga se capitalizar na bolsa de valores e seja privatizada simultaneamente, há possibilidade de geração de 136 mil empregos, o que não vem ocorrendo enquanto ela segue como estatal.

Argentina e Venezuela

O ministro demonstrou preocupação com o aumento dos gastos públicos e com o longo caminho de reformas a ser percorrido. Sem as medidas aprovadas, ele afirmou que o Brasil pode viver situações semelhantes às da Argentina e da Venezuela, países vizinhos em crise econômica:

– Vai chegar uma hora que você não consegue mais. Para virar Argentina, seis meses. Para virar Venezuela, um ano e meio. Se fizer errado, vai errado. Quer ir para o outro lado, quer virar Alemanha ou Estados Unidos? São dez, quinze anos na outra direção.

Auxílio emergencial

Guedes foi questionado sobre as discussões acerca da PEC que cria a nova rodada do auxílio emergencial poder ser analisada sem o estabelecimento de contrapartidas para a concessão do benefício.

– Isso seria caótico para o Brasil e teria um efeito muito ruim para o brasileiro. É o que aprendemos no ano passado e a gente não pode repetir – disse.

O ministro argumentou que o governo lançou várias camadas de proteção para os mais frágeis ao longo da pandemia, mas não pode permitir, agora, um descuido com o gasto público. Para ele, quebrar a discussão sobre concessão do auxílio e contrapartidas em duas partes seria empurrar o custo para futuras gerações sob pena de comprometer fortemente a atividade econômica no país.

– Os juros começam a subir, acaba o crescimento econômico e começa a confusão. Endividamento em bola de neve, a confiança dos investidores desparece, interrompe a criação de emprego, renda, inovação e aumenta o desemprego. É o caminho da miséria, caminho da Venezuela, caminho da Argentina.

Segundo Guedes, a única contrapartida que o governo quer é o congelamento dos salários do funcionalismo:

– Não vamos tirar nada de ninguém, é só não aumentar o salário. Ficar sem aumento ano passado e esse ano é R$ 150 bilhões – declarou, ressaltando que esse dinheiro será investido na saúde.

Guedes ainda falou sobre manter as coisas boas de governos passados e citou como exemplo o Bolsa Família, evolução do Bolsa Escola e outros benefícios de assistência social que foram unificados com o objetivo de escapar da perpetuação da pobreza.

– Nós também vamos fazer um programa semelhante, aperfeiçoar um pouco mais. Vamos chamar de Renda Brasil ali na frente – mencionou.

O Renda Brasil foi a primeira discussão de reformulação do Bolsa Família tornada pública pela gestão Bolsonaro. A proposta da equipe econômica era de eliminar benefícios considerados ineficientes, como seguro defeso e abono salarial, para turbinar o Bolsa Família.

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