Guerra da Ucrânia: Sob pressão, Rússia acelera anexações
Source: UOL | Original Published At: 2022-09-20 12:12:00 UTC
Key Points
- Rússia acelera planos de anexação de territórios ucranianos sob ocupação
- Medvedev ameaça usar autodefesa nuclear para justificar anexações
- Referendos de anexação programados para 23-27/09 em Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia
- Forças ucranianas avançam em contra-ofensiva, especialmente em Kharkiv
- Rússia busca apoio do BRICS e Organização de Segurança de Xangai
São Paulo
À espera de condenações na tribuna da Assembleia Geral da ONU e com relatos de perdas de mais territórios ocupados na sua invasão da Ucrânia, a Rússia de Vladimir Putin resolveu acelerar o processo de anexação de áreas do país vizinho.
Coube ao ex-presidente e hoje adjunto de Putin no Conselho de Segurança Dmitri Medvedev desenhar a motivação: “Invasão de território russo é um crime que nos permite usar todas as formas de autodefesa”, disse, ao comentar os pedidos de três administradores pró-Rússia de áreas ocupadas para a realização de referendos sobre a anexação.
Funcionário do governo de Kadiivka, sob ocupação russa, em prédio destruído por bombardeio ucraniano – Alexander Ermotchenko – 19.set.2022/Reuters
“Os referendos vão mudar completamente o vetor de desenvolvimento da Rússia por décadas. E não só para nosso país. A transformação geopolítica do mundo será irreversível assim que os novos territórios estiverem incorporados à Rússia”, escreveu em uma postagem no Telegram.
Por autodefesa, Medvedev pode estar pavimentando para o chefe a mudança na política atual, de não fazer mobilização geral, que levou à perda de áreas em Kharkiv (nordeste) e parece colocar em risco as franjas de Lugansk, um das duas províncias do Donbass (leste) que os russos conquistaram em julho.
No extremo da ameaça, a aplicação da doutrina nuclear russa, de emprego de bombas atômicas em caso de riscos existenciais. Terceira Guerra Mundial, em outras palavras. Só os EUA já se comprometeram a enviar mais de US$ 15 bilhões (R$ 76 bilhões) em armas para Kiev, e elas têm feito a diferença na atual ofensiva.
Recebendo credenciais de embaixadores, Putin adiantou o discurso que seu chanceler, Serguei Lavrov, deverá fazer na ONU. Criticou o que considera projeto hegemônico dos EUA, que “controla tudo, a América Latina, Europa, Ásia e África”.
“A hegemonia funcionou em fazê-lo já por muito tempo, mas não pode seguir para sempre, a despeito dos desenvolvimentos na Ucrânia”, afirmou, de forma algo cifrada e menos bombástica do que o usual sobre o rumo da sua guerra.
O discurso antiamericano é idêntico ao de seu maior parceiro e principal rival estratégico dos EUA, a China de Xi Jinping, com quem Putin encontrou-se na semana passada, ouvindo “preocupações” acerca da guerra, mas depois aumentando a cooperação militar entre os países.
O roteiro para o Kremlin está pronto e não difere do já aplicado à Crimeia, ali sem guerra em 2014, e mesmo no pedido de proteção das duas autoproclamadas repúblicas populares do Donbass, um dos “casus belli” da invasão em fevereiro, quando Putin as reconheceu. Segundo a agência RIA-Novosti, os referendos fadados a serem acusados de farsescos no Ocidente ocorrerão de 23 a 27 de setembro, um prazo bastante exíguo.
Na segunda (19), os parlamentos locais de Donetsk e Lugansk, as províncias do leste, concordaram em acelerar a organização do referendo, apesar da oposição do FSB (Serviço Federal de Segurança, uma das agências sucessoras da KGB) por motivos de insegurança.
Nesta terça (20), foi a vez do governo de ocupação de Kherson (sul), outra região sob ataque ucraniano, este muito menos bem-sucedido do que o de Kharkiv. Segundo disse no Telegram Vladimir Saldo, o chefe local, “Kherson irá se tornar um ente pleno de um país unido”, afirmou. Lá, os russos ocupam cerca de 95% do território, algo semelhante à vizinha Zaporíjia, onde o administrador local também prometeu um referendo.
Em Lugansk, a ocupação é quase total, salvo algumas vilas perto da fronteira com Kharkiv, mas a situação em solo é fluida. A dúvida maior é sobre a fronteira que os russos deverão reclamar em Donetsk, cuja capital provincial homônima é governada por separatistas desde a guerra civil iniciada em 2014, na esteira da anexação da Crimeia, por sua vez uma resposta de Putin à queda do governo pró-Kremlin em Kiev.
Em Donetsk, cerca de 60% do território está em mãos rebeldes e russas, e as forças ucranianas têm posições bem defendidas na província. Na noite de segunda, o presidente Volodimir Zelenski afirmou em Kiev que as tropas russas estão “fugindo em pânico” em vários pontos das frentes de batalha.
Segundo Saldo, o referendo ocorrerá o mais rapidamente possível, e seus estimados 20 mil soldados serão incorporados às Forças Armadas russas.
O embaixador de Lugansk em Moscou, Rodion Mirochnik, deu inclusive pistas do verniz legalista do processo: ele seria submetido à Organização de Segurança de Xangai, a entidade multinacional criada pela China que sediou o encontro Putin-Xi, e aos países do Brics, bloco que une Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
É de se especular qual seria a reação do governo de Jair Bolsonaro (PL) a um pedido desses, dado que ele manteve a boa relação com Putin ao longo da guerra e recebeu agradecimentos russos por isso, ainda que o Brasil condene a invasão em si.
Falando à TV estatal russa, Lavrov afirmou que a posição russa sempre foi de “respeitar o desejo das populações”, indicando por onde vai o Kremlin.
Como seria previsível, a Duma (Câmara baixa do Parlamento russo) apoiou com entusiasmo a iniciativa. Significativamente, ela também aprovou nesta terça uma lei endurecendo o regime de punição para quem desertar durante situações de combate ou mobilização geral —deixando assim mais um instrumento pronto para Putin caso ele altere sua política, o que de todo modo parece difícil dado à impopularidade de tal movimento.
O presidente russo está sob pressão. Membros mais linha-dura de sua elite têm se pronunciado em favor de uma guerra mais ampla e destrutiva, envolvendo os números de soldados necessários para alguma vitória —o fracasso em tomar Kiev na primeira semana do conflito se deveu, entre outras coisas, à escassez de tropa.
Os movimentos desta semana parecem ampliar o leque à disposição do líder, que aposta no confronto com o Ocidente para galvanizar o apoio que segue recebendo apesar das críticas pontuais.