Lula recebe os Brics no Rio em meio a “guerra” com o Congresso e dúvidas sobre o bloco
Source: BBC | Original Published At: 2025-07-04 08:22:02 UTC
Key Points
- Lula enfrenta queda na popularidade (28% de aprovação) e conflito com o Congresso sobre medidas econômicas.
- A cúpula dos Brics ocorre em meio a críticas internacionais sobre alinhamento com China, Rússia e Irã.
- O governo tenta aumentar impostos sobre empresas e "super ricos", mas enfrenta resistência no Congresso.
- A ausência de Xi Jinping e Putin nas reuniões do Brics gera incertezas sobre o futuro do bloco.
- Especialistas avaliam que o evento dificilmente melhorará a imagem de Lula internamente.
Lula recebe Brics com governo em pé de guerra com Congresso e dúvidas sobre futuro do bloco
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebe os chefes de Estado que participarão da cúpula dos Brics no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, a partir do próximo domingo (6/7). O trânsito na quase sempre congestionada zona sul do Rio de Janeiro estará parcialmente bloqueado, policiais e militares farão a segurança da área e os líderes deverão trocar apertos de mão, abraços e posar para fotos.
O cenário é o mesmo onde, há quase sete meses, foi realizada a cúpula do G20, grupo das 20 maiores economias do mundo. Mas apesar das semelhanças, o clima político no Rio de Janeiro para Lula será bem diferente do observado no final de novembro de 2024. Tanto no âmbito doméstico quanto no internacional.
No plano internacional, o G20 foi projetado pelo governo brasileiro como uma espécie de “retorno” do país ao cenário internacional após o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Líderes de todo o mundo, incluindo o então presidente norte-americano, Joe Biden, vieram ao Brasil.
Já os Brics, formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Egito e Irã, vêm sendo alvo de críticas por seu suposto alinhamento em torno do trio China, Rússia e Irã contra Estados Unidos e Europa.
O bloco também já foi criticado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e tratado como ameaça ao dólar norte-americano.
Mas é no plano doméstico que a situação parece ainda mais desafiadora para Lula. Se em novembro de 2024 Lula vivia um momento de relativa estabilidade, agora Lula vive duas crises ao mesmo tempo. Uma de popularidade e outra política, em meio a um embate aberto com parte do Congresso Nacional em torno de medidas tomadas por sua equipe econômica, como a recente tentativa de aumentar a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o momento em que Lula recebe os Brics é delicado e que, apesar de o presidente tentar projetar uma imagem de líder de expressão internacional, a cúpula dos Brics dificilmente terá o efeito de melhorar sua popularidade interna.
Procurado, o Palácio do Planalto não respondeu às questões enviadas pela BBC News Brasil.
A popularidade de Lula em seu terceiro mandato nunca chegou aos patamares observados nos seus dois primeiros governos, quando ele chegou a obter uma aprovação de até 83%, em 2010, segundo o Datafolha.
De acordo com o instituto, a taxa mais alta de aprovação deste mandato, traduzida pela classificação de “ótimo” e “bom”, chegou a 38%, em março de 2023, pouco depois de Lula tomar posse. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
As taxas de aprovação em seu terceiro mandato vinham se mantendo relativamente estáveis, segundo os principais institutos de pesquisa, até dezembro de 2024.
Naquele momento, Lula tinha a aprovação de 35% dos entrevistados do Datafolha. A desaprovação (ruim ou péssimo) chegava a 34%. Em fevereiro, o quadro virou. A desaprovação subiu e chegou a 41%, enquanto a aprovação caiu para 24%.
Preocupado com os baixos níveis de aprovação, o governo trocou o comando da comunicação presidencial. O publicitário Sidônio Palmeira, responsável pela campanha de Lula em 2022, assumiu a Secretaria de Comunicação Social do governo.
Nos meses seguintes, o governo ensaiou uma discreta recuperação, mas em junho, mês da última pesquisa, o governo era aprovado por apenas 28% dos entrevistados e desaprovado por 40%.
O professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Cláudio Couto aponta três fatores que ajudam a explicar a queda da popularidade de Lula nos últimos meses.
“Tivemos a crise do Pix, em janeiro deste ano. Foi uma batalha que o governo perdeu para a oposição. Depois disso, tivemos a crise do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). Essa, realmente, abateu o governo quando ele tentava ensaiar uma recuperação em sua popularidade. O terceiro fator é que o governo herdou uma inflação muito alta e os salários não acompanharam esse aumento de preços. Isso afetou a sensação de bem-estar econômico”.
A crise do Pix aconteceu no início do ano depois que o governo anunciou regras para aumentar a fiscalização sobre as operações financeiras feitas por meio do sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central. Segundo o governo, a ideia era diminuir as brechas para a sonegação.
A oposição, no entanto, fez uma campanha contra as medidas afirmando que elas tinham, na verdade, o objetivo de aumentar a arrecadação de impostos e fiscalizar as transações financeiras do cidadão comum. Em meio à polêmica, o governo revogou as medidas.
A crise do INSS, por sua vez, eclodiu em abril deste ano depois que a Polícia Federal deflagrou uma operação contra entidades sindicais que vinham desviando recursos de aposentados e pensionistas por meio de descontos fraudulentos. A estimativa é de que o prejuízo aos beneficiários da Previdência tenha sido de R$ 6,3 bilhões.
Apesar de as fraudes terem tido início no governo de Michel Temer (MDB) e se perpetuado durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL) e na primeira metade do terceiro mandato de Lula, uma pesquisa do Datafolha constatou que a percepção da população sobre o caso é mais negativa em relação ao governo Lula do que sobre o governo Bolsonaro.
Segundo os dados, 50% da população avalia que o governo petista teve muita responsabilidade pelo escândalo do INSS, contra 41% em relação ao governo Bolsonaro.
Para o professor de gestão de políticas públicas da Universidade de São Paulo (USP) Pablo Ortellado, o cenário desafia analistas e o governo.
“Vários analistas têm enfatizado a inflação como um dos elementos dessa crise de imagem, mas ela não é tão grande assim e o Brasil passa por um momento de bons indicadores econômicos, com baixo desemprego e crescimento do PIB. O que observamos é que existe uma má imagem do governo construída pela oposição de forma muito bem sucedida e da qual o governo não vem conseguindo se desvencilhar”, diz Ortellado à BBC News Brasil.
E junto com essa queda na popularidade vieram os conflitos com o Congresso Nacional. O mais acirrado até agora é, também, o mais recente, e envolve o decreto de Lula que mudou as alíquotas cobradas do IOF.
Em maio, numa tentativa de aumentar a arrecadação, o governo editou um decreto aumentando as alíquotas do IOF sobre crédito, seguros e operações de câmbio destinadas a empresas. Não havia previsão de alteração nas alíquotas para pessoas físicas.
O governo estimava aumentar a arrecadação em R$ 20 bilhões em 2025 e R$ 40 bilhões em 2026.
Após sinais do Congresso Nacional de que o decreto seria derrubado, o Parlamento efetivamente o revogou no final de junho. O governo, com aval de Lula, anunciou que recorreria ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a medida.
Acirrando ainda mais o clima entre o governo e parte do Congresso Nacional, o PT e o governo passaram a defender, abertamente, medidas que preveem o aumento de impostos sobre bilionários, empresas de apostas (bets) e o setor financeiro, mas que ainda não avançaram no Congresso Nacional.
Se “em casa” o cenário parece complicado para o governo, nos Brics a situação também é permeada de incertezas. O grupo, que agora tem 11 integrantes, enfrenta desafios como a ausência de líderes importantes (Xi Jinping e Vladimir Putin) e pressões externas de Donald Trump, que prometeu tarifas sobre países do bloco caso adotem medidas contra o dólar.
Especialistas avaliam que a cúpula dos Brics dificilmente terá impacto na popularidade de Lula, que depende mais de respostas domésticas para suas crises políticas e econômicas.