Sob pressão, Petrobras vai destinar R$ 300 milhões para subsidiar gás de cozinha para famílias de baixa renda
Source: Jornal O Globo | Original Published At: 2021-09-29 23:26:09 UTC
Key Points
- Petrobras destinará R$ 300 milhões para subsidiar gás de cozinha para famílias vulneráveis
- Programa de 15 meses abrange período eleitoral de 2022
- Decisão ocorre sob pressão política e crítica à política de preços da empresa
- Especialistas questionam eficácia e adequação da medida ao papel da empresa estatal
RIO — A Petrobras informou na noite desta quarta-feira que irá destinar R$ 300 milhões para a criação de um programa social de apoio a famílias em situação de vulnerabilidade social, para garantir que tenham acesso a insumos essenciais, com foco no gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha.
A decisão foi anunciada dias depois de o presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna, ter afirmado que não haveria qualquer mudança na política de preços da estatal e que não caberia à empresa ações para subsidiar o preço do botijão de gás, um dos itens que mais pressionam os gastos das famílias de baixa renda.
Enquanto isso…Câmara aprova vale gás para subsidiar 50% do valor do botijão
Ele reagiu na segunda-feira a um discurso do presidente Jair Bolsonaro, que atribuiu a alta do preço dos combustíveis e seu impacto na inflação à política de preços praticada pela Petrobras, atrelada ao câmbio e ao preço internacional do petróleo.
Nos últimos dias, essa política foi criticada pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Banco Central, Roberto Campos Neto.
Capital:Nos milhões da Petrobras para o gás de cozinha, uma conta que não fecha para os mais pobres
Programa vai até o fim do ano eleitoral
O programa terá duração de 15 meses, informou a Petrobras, o que incluirá o período da campanha para as eleições de outubro de 2022, quando Bolsonaro pretende concorrer à reeleição. Foi apresentado como uma ação de responsabilidade social.
De acordo com a companhia, o programa, que foi aprovado pelo Conselho de Administração, é similar a ações sociais de praticadas por outros agentes de mercado e se justifica pelos efeitos da pandemia de Covid-19.
Leia mais:Bolsonaro diz que preço do gás de cozinha vai cair à metade com venda direta
“Somos uma empresa socialmente responsável e comprometida com a melhoria das condições de vida das famílias, particularmente das mais vulneráveis. A pandemia e todas as suas consequências trouxeram mais dificuldades para as pessoas em situação de pobreza. Tal fato alerta a Petrobras para que reforce seu papel social, contribuindo ainda mais com a sociedade”, destacou o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, em comunicado.
Com pandemia e sem o auxílio emergencial, pobreza aumenta no Brasil Foto Anterior Proxima Foto Com o alto preço do gás, Simone, de 49 anos, é obrigada a retroceder à lenha para cozinhar no quintal de casa Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Vitória dos Santos Macedo, de 21 anos, era ambulante na praia. Com a pandemia, deixou de trabalhar. Vivendo com o marido no Vale dos Eucaliptos, em Senador de Vasconcelos, Zona Oeste do Rio, a casa deles não tem água encanada, nem fogão, nem geladeira Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Simone Souza Bernardes, 49 anos. Ela e os filhos, Aline, 6 anos, Marcos e Naiara, de 15, vivem na zona rural de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Dados mostram que, com impacto da queda de renda durante a pandemia, 14% dos brasileiros que não eram considerados pobres em 2019 estão nesta situação em 2021 Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo No caixote onde Simone está sentada, estão guardados os poucos mantimentos que se tem para a família, um pouco de farinha e feijão Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Com alta do gás: População pobre convive com o perigo de fogões a lenha improvisados
O modelo do programa está em fase final de estudos, segundo a Petrobras, incluindo a definição do critério de escolha das famílias em situação de vulnerabilidade e da busca de parceiros que possam somar esforços e ampliar o valor a ser investido, com a possibilidade da criação de um fundo que permita que outras empresas venham a aderir ao projeto.
Mil dias de Bolsonaro na economia: Reforma da Previdência, alta da inflação e do desemprego e agenda liberal emperrada
Ação foge do papel da empresa, dizem especialistas
Diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires afirma que é preciso esperar por mais detalhes sobre o programa para avaliar quais seriam os impactos para a empresa.
De um modo geral, ele considera positivo que, em meio às discussões sobre ESG (práticas de governança ambiental, social e corporativa), a Petrobras esteja engajada em causas sociais.
Ao Ponto Os antídotos contra a inflação e seus efeitos colaterais Lauro e Gabeira A solidão de Bolsonaro após mil dias de governo A Malu tá ON Nina da Hora: Cenário digital para as eleições precisa mudar já Panorama CBN Luciano Hang no ‘picadeiro’ da CPI; ‘malabarismos’ na lei de improbidade; Bolsonaro alvo nos EUA
No entanto, ele acredita que isso deveria ser feito através de ações como a doação de cestas básicas, por exemplo, e não de ajuda de custo:
— É compreensível que a Petrobras queira ajudar, considerando que o gás de cozinha está mesmo muito caro e a alternativa das pessoas acaba sendo a lenha, que polui muito mais do que o gás. Mas R$ 300 milhões em 15 meses teria um efeito muito pequeno do ponto de vista de redução do preço do produto.
Fábio Alperowitch, cofundador e atual diretor da gestora FAMA Investimentos, especializada em fundos ESG, não vê iniciativa da estatal como positiva.
Para ele, o papel social das empresas deve ser trabalhado através de políticas permanentes.
— O governo, como controlador da companhia, novamente passa por cima dos bons princípios da governança corporativa para atingir seus próprios objetivos.
Para o economista Mauro Rochlin, da FGV, o subsídio do gás de cozinha “não é tarefa para uma empresa estatal”, mas sim para o governo, que como principal acionista da companhia poderia usar o valor que recebe de dividendos para repassar aos consumidores através de medidas como essa.
— É uma política de estado. Deveria ser levada de forma transparente pelo governo. A interferência no preço dos combustíveis foi feita no passado e não deu muito certo. O governo Dilma usou a política de preços da Petrobras para controlar a inflação e nós vimos o que aconteceu — alerta.
Com duração de 15 meses, o programa ainda estaria vigente na data das eleições presidenciais de 2022. Por isso, o receio é que a medida tenha um viés político que acabe prejudicando a estatal e a economia.
— Qualquer política que atenda de maneira imediata às pessoas de menor renda acaba gerando uma visão simpática em relação ao governo — resume Rochlin.