Lula participa de evento que Putin usa para fazer propaganda da Rússia
Source: Revista Oeste | Original Published At: 2025-05-08 09:57:00 UTC
Key Points
- Lula participa do desfile militar do Dia da Vitória na Rússia, evento usado por Putin para propaganda
- Presença de líderes de países não democráticos reforça narrativa de resistência russa às sanções ocidentais
- Análise divergente sobre impacto da visita: risco de desgaste com UE versus oportunidade de fortalecer BRICS
- Brasil não tem influência para mediar conflito na Ucrânia, segundo especialistas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou na capital da Rússia nesta quarta-feira, 8, como um dos poucos chefes de Estado do mundo com presença confirmada na celebração do Dia da Vitória, que marca a vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra. A visita tem um peso simbólico nas relações diplomáticas do Brasil com a Rússia e, de acordo com analistas, sinaliza a aproximação de Lula com o presidente russo, Vladimir Putin.
Históricamente, Putin utiliza o Dia da Vitória para impulsionar o nacionalismo russo e projetar uma imagem de força para o mundo. Diversos chefes de Estado já participaram da celebração no passado, mas desde o começo da guerra na Ucrânia, em 2022, a presença de lideranças internacionais se tornou menor. Neste ano, presidentes de 18 países não considerados democracias estarão presentes na celebração do 80º aniversário do fim da guerra.
Segundo o professor de relações internacionais da ESPM, Gunther Rudzit, a presença de chefes de Estado nas celebrações é utilizada por Putin como demonstração de apoio internacional. Isso se tornou ainda mais forte depois da guerra na Ucrânia, quando as relações da Rússia com a União Europeia, os Estados Unidos e aliados ocidentais se deterioraram.
O principal chefe de Estado presente neste ano será o ditador da China, Xi Jinping, que aumentou o laço com a Rússia depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, sobretudo como parceiro comercial. Depois da China, o Brasil é o país com a economia mais forte a confirmar presença.
Outros convidados são os líderes das antigas repúblicas soviéticas: Armênia, Azerbaijão, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão. Também confirmaram presença os líderes da Bósnia, Burkina Faso, Congo, Cuba, Egito, Guiné Equatorial, Etiópia, Guiné-Bissau, Laos, Mongólia, Mianmar, Palestina, Sérvia, Eslováquia, Venezuela, Vietnã e Zimbábue.
O único país da União Europeia a ser convidado foi a Eslováquia. Aleksandar Vucic, presidente da Sérvia, que busca entrar na UE, planejava ir, mas adoeceu durante uma viagem aos Estados Unidos e cancelou a viagem. No caso de Vucic, Bruxelas chegou a alertar para o fato de que a visita violaria os critérios de adesão à UE e prejudicaria o país no processo de aceitação. A UE rompeu relações com a Rússia depois da invasão da Ucrânia; o bloco tem sido um financiador das tropas ucranianas e forte crítico de Putin.
A expectativa da presença de chefes de Estado levou o principal conselheiro de política externa do Kremlin, Yuri Ushakov, a declarar que o evento terá ‘grande escala’. ‘Apesar da atitude hostil em relação à Rússia por parte de vários países ocidentais, estamos fazendo com muito sucesso um evento de grande escala’, disse à imprensa estatal russa.
‘Trata-se de uma chance para a Rússia demonstrar que não está isolada na diplomacia. A ida do Brasil para o evento este ano ajuda a reforçar essa ideia’, afirmou o professor da ESPM. Em contrapartida, os ganhos para o Brasil são incertos.
Para Rudzit, o Brasil não tem a ganhar com a ida de Lula à Rússia. Ao contrário, tem a perder: ao demonstrar proximidade com Putin, o brasileiro envia um recado negativo à União Europeia, que pode afetar o acordo comercial do bloco com o Mercosul. ‘É um acordo que se arrasta há muito tempo e que enfrenta oposição na Europa, principalmente da França. Uma imagem de Lula atrelada a Putin coloca isso sob risco’, declarou.
De acordo com o analista, esse risco é presente mesmo no momento em que a UE busca ampliar laços comerciais ante uma guerra comercial entre China e EUA, que desestabiliza as relações. ‘Putin é uma ameaça existencial para a Europa como conhecemos hoje. Se eles tiverem que preterir questões comerciais por existenciais, eles vão fazer’, disse Rudzit.
O professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Pedro Brites, discorda da ideia. Segundo ele, o acordo entre os blocos está avançado, e a Europa deve priorizar os laços comerciais. ‘A visita pode gerar algum desgaste de imagem, mas não acredito que vá além disso neste momento em que a União Europeia busca diversificar laços’, declarou.
Brites acrescenta que a visita de Lula acontece no momento em que os Estados Unidos, que até então foram os principais parceiros da Ucrânia no conflito, retomaram os diálogos com a Rússia, sob a Presidência de Donald Trump. ‘O Brasil se sentiu mais confiante de ter uma postura mais assertiva [de aproximação com Moscou]’, declarou.
Em contrapartida, afirma Pedro Brites, o país pode aprofundar os laços comerciais com Moscou e exercer protagonismo no Brics, bloco que preside neste ano e que conta com a Rússia. ‘O Brasil tem chance de protagonismo no Brics mais do que em qualquer outro bloco de que faça parte. Por isso, há uma aposta no bloco, e fortalecer as relações com outros países do Brics é estratégico para o país se mostrar forte na diplomacia’, acrescentou.
Os dois analistas concordam, no entanto, que a visita de Lula tem chances nulas de influenciar os rumos da guerra — um desejo enfatizado pelo presidente desde que voltou ao Planalto. Rudzit elenca duas razões para isso: o país não é visto por uma das partes do conflito, a Ucrânia, como imparcial; e não tem condições de exercer pressões econômicas nem políticas. Brites acrescenta que os interesses opostos de Rússia e Ucrânia dificultam qualquer mediação.