Irã endurece postura e complica declaração do Brics em cúpula esvaziada
Source: CNN Brasil | Original Published At: 2025-07-05 04:02:50 UTC
Key Points
- Irã exige linguagem mais dura contra ataques de Israel e EUA na declaração do Brics
- Ausências de líderes como Xi Jinping, Putin, Al-Sisi e Pezeshkian esvaziam a cúpula
- Disputas sobre reforma do Conselho de Segurança da ONU e condenação a práticas protecionistas persistem
- Brasil busca projetar imagem de defensor do multilateralismo e segurança durante o evento
Sem o chinês Xi Jinping e o russo Vladimir Putin, os líderes do Brics se reúnem a partir deste domingo (6), no Rio de Janeiro, em uma cúpula esvaziada e que ainda tem pelo menos dois pontos relevantes em aberto na sua declaração final: a reforma do Conselho de Segurança da ONU e os termos para condenar as recentes ações militares contra o Irã.
A delegação iraniana exigiu uma postura mais firme do Brics contra os ataques recentes de Israel e dos Estados Unidos às suas instalações nucleares, com linguagem que vá além da nota conjunta divulgada pelo grupo na semana retrasada, expressando “profunda preocupação” e enfatizando a violação do direito internacional.
Para o Irã, o termo é brando demais e há necessidade de ser mais incisivo. A adoção de uma linguagem mais dura, no entanto, esbarra em países — Índia, Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes — com boas relações ou laços de segurança com o eixo Washington-Tel Aviv.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, está a caminho do Rio e deve jogar mais pressão por esses termos. Um diplomata do Brics envolvido nas negociações reconhece que a divergência tem potencial para complicar a declaração dos líderes do Brics.
Esse diplomata teme, inclusive, que a linguagem do grupo sobre a questão palestina e a situação em Gaza — consolidada em encontros anteriores — seja contaminada pelo impasse. O Irã é apoiador do Hamas.
Desfalques
Xi e Putin não serão os únicos desfalques. O presidente do Egito, Abdel Fatah Al-Sisi, e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, já haviam comunicado sua ausência na cúpula.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, sinalizava a possiblidade de vir ao Rio mesmo após os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao país. Nesta semana, avisou a decisão de cancelar.
Até países da região, escolhidos pelo Brasil como convidados, estão enviando representantes menores. Em crise política interna, o colombiano Gustavo Petro mandou apenas o embaixador do país em Brasília. A mexicana Claudia Sheinbaum também acabou não vindo.
Diante dos desfalques, algumas presenças destacadas no encontro são:
Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia
Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul
Li Qiang, primeiro-ministro da China
Prabowo Subianto, presidente da Indonésia
Pham Minh Chinh, primeiro-ministro do Vietnã
Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia
Mohamed bin Zayed, príncipe-herdeiro de Abu Dhabi e presidente dos Emirados Árabes Unidos
Antonio Guterres, secretário-geral da ONU
Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde)
Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio)
As ausências são obviamente lamentadas pelo governo brasileiro, mas o Palácio do Planalto e o Itamaraty tentam enxergar o copo “meio cheio”.
Reservadamente, diplomatas citam certo “alívio” com o não comparecimento de líderes em meio à crescente tensão no Oriente Médio, o que poderia lançar olhares da comunidade internacional sobre um suposto caráter “anti-Ocidente” do Brics.
A intenção do Brasil, à frente da presidência do grupo, é fazer uma defesa firme do multilateralismo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) receberá seus convidados no Museu de Arte Moderna (MAM), no Aterro do Flamengo, sob forte esquema de segurança.
As Forças Armadas fizeram uma “megamobilização”: caças F-5M e aviões A-29 (Super Tucano) equipados com mísseis, oito helicópteros, nove embarcações, 38 blindados, 147 motocicletas, 361 viaturas.
O Exército, a Marinha e a Aeronáutica chegaram a simular um ataque com armas químicas, biológicas, radiológicas e nucleares em meio à cúpula para testar e aperfeiçoar suas capacidades de resposta.
Outras divergências
Nas negociações, além dos ataques ao Irã, outros dois pontos ainda estavam em aberto. Um era a linguagem a ser adotada pelos países do Brics para condenar medidas protecionistas — em referência à guerra tarifária deflagrada pela Casa Branca.
Em maio, os ministros de Comércio do Brics se reuniram em Brasília e disseram estar “profundamente preocupados com essas práticas e políticas que minam as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) e o sistema multilateral”.
Havia divergências, porém, sobre os termos na declaração final dos líderes. Alguns países, como o Brasil, preferiam uma linguagem mais direta — embora sem menções específicas a Trump.
Outros, como China e Índia, estão em um delicado processo de negociação comercial com os Estados Unidos para amenizar a aplicação de tarifas. Por isso, segundo relatos feitos à CNN, preferiam um jogo de palavras menos incisivo. Nas últimas horas, essas divergências foram praticamente contornadas.
A segunda indefinição, que permanece, diz respeito ao Conselho de Segurança da ONU. O Brasil tem interesse em cobrar, como nas declarações anteriores nas cúpulas do Brics, uma reforma do colegiado e a inclusão de novos membros permanentes. Egito e Etiópia resistem.
Os dois países africanos já haviam impedido, em abril, um comunicado final na reunião de chanceleres do Brics. Foi a primeira vez, na história do bloco, que isso ocorreu.
A resistência do Egito e da Etiópia é vista como uma percepção das duas nações de que, caso haja uma reforma das Nações Unidas em algum momento, os assentos do continente africano no Conselho de Segurança venham a ser preferencialmente ocupados por África do Sul e Nigéria — economias maiores e mais robustas.