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Somos solidários com a Rússia, garante Bolsonaro a Putin

Source: Diário de Notícias | Original Published At: 2022-02-16 15:22:00 UTC

Key Points

  • Bolsonaro expressa solidariedade do Brasil à Rússia durante visita oficial a Putin
  • Cooperação econômica destacada em áreas como agricultura, defesa, petróleo e gás
  • Histórico de relações Brasil-Rússia e papel no BRICS mencionado como base para parcerias
  • Viagem criticada por EUA e pela diplomacia brasileira devido ao contexto da crise na Ucrânia
  • Bolsonaro busca fortalecer apoio de setores militares e agrícolas no Brasil

Vladimir Putin recebeu nesta quarta-feira, dia 16, Jair Bolsonaro, no Kremlin, em Moscovo. A visita do presidente brasileiro ao seu homólogo russo já estava marcada antes da escalada da tensão na Ucrânia mas a sua confirmação mereceu reparos da diplomacia brasileira e dos Estados Unidos. No encontro, Bolsonaro disse a Putin que “o Brasil é solidário à Rússia”.

“Estou muito feliz e honrado pelo seu convite. Somos solidários com a Rússia. Temos muito a colaborar em várias áreas, defesa, petróleo e gás, agricultura, as reuniões estão acontecendo, tenho a certeza de que esta passagem por aqui é o retrato para o mundo de que nós podemos crescer muito com as nossas relações bilaterais”, afirmou Bolsonaro.

Putin sublinhou que “o Brasil é o principal parceiro comercial da Rússia na América Latina”. “Estamos retomando as relações que foram interrompidas pela pandemia, os principais ministros do seu governo visitaram Moscovo, hoje foi realizado um encontro com os ministros das Relações Exteriores e da Defesa, trabalhamos ativamente nos fóruns internacionais, é uma alegria recebê-lo e espero que o nosso encontro seja produtivo”.

Mais tarde, já depois de um almoço entre ambos, Bolsonaro lembrou que ele e Putin partilham “valores comuns, como a crença em Deus e a defesa da família”. “E também somos solidários a todos aqueles países que querem e se empenham pela paz”. Para destacar, no fim, que o Brasil “atribui elevada prioridade à dinamização da aliança tecnológica com a Rússia”.

Depois do encontro, Bolsonaro reuniu-se com o presidente da Duma, parlamento russo, e com empresários da área agrícola. Em seguida, viaja para a Hungria, onde vai encontrar o primeiro-ministro Viktor Orbán, do Fidesz, partido nacionalista conservador local.

HOMENAGEM A COMUNISTAS

O primeiro compromisso de Bolsonaro em Moscovo, entretanto, foi uma visita ao monumento “Túmulo do Soldado Desconhecido”, erguido em homenagem aos soldados da União Soviética que morreram em confronto com nazis durante a Segunda Guerra Mundial. O presidente do Brasil, acompanhado de Carlos França, ministro das Relações Exteriores, e de quatro ministros militares, deixou flores no monumento.

© EPA/MAXIM SHEMETOV

“Não deixa de ser uma pequena ironia para um político que, no seu discurso de posse em 2019, havia prometido trabalhar para “livrar o Brasil do socialismo”, notou o enviado do jornal Folha de S. Paulo à Rússia.

“O túmulo em causa é um dos pontos altos simbólicos da celebração da vitória da União Soviética, império comunista que durou de 1922 a 1991 e está no centro dos fetiches do bolsonarismo, na Segunda Guerra Mundial”, prosseguiu Igor Gielow.

VIAGEM CRITICADA

O presidente do Brasil decidiu visitar o homólogo russo apesar de recomendações em sentido contrário, a começar pelos EUA: segundo reportagem do jornal O Globo, representantes do secretário de estado americano Anthony Blinken fizeram chegar ao conhecimento do ministério das Relações Exteriores brasileiro, que consideravam o momento impróprio para uma aproximação entre Bolsonaro e Putin – as maiores potências do Ocidente vêm trabalhando, de forma coordenada, para isolar o presidente russo com pressões diplomáticas, sanções económicas e ameaças militares no contexto da tensão na fronteira com a Ucrânia.

Em paralelo, o encarregado de negócios da embaixada da Ucrânia em Brasília, Anatoliy Tkach e o assessor para Assuntos Internacionais da presidência do Brasil, Filipe Martins, sugeriram que, para diminuir eventuais estragos diplomáticos, Bolsonaro também visitasse a Ucrânia, demonstrando não estar a tomar partido na disputa. O presidente brasileiro, porém, não se convenceu.

“Não vou falar desse assunto [Ucrânia], se vier à conversa será por vontade do presidente Putin”, afirmou em entrevista à TV Record semanas antes da viagem.

Nas últimas semanas, Putin ordenou a movimentação de centenas de milhares de tropas em regiões de fronteira com a Ucrânia. O gesto foi visto pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, como uma tentativa russa de invadir o território ucraniano.

AGROPECUÁRIA E EXÉRCITO

Mesmo que o Brasil não tenha qualquer interesse particular na tensão Rússia-Ucrânia-NATO, o país sul-americano voltou a integrar em janeiro, depois de 11 anos, o Conselho de Segurança da ONU, órgão que tem o poder de autorizar o uso legal da força na relação entre países – esse dado, segundo observadores, coloca um peso maior a qualquer sinal emitido pela diplomacia brasileira a respeito de impasses militares entre países-membros.

O objetivo de Bolsonaro, segundo fontes do governo, sempre foi, além de agradar a Putin, satisfazer os setores agropecuário e militar, duas das suas principais bases de apoio, com encontro com empresários para manter aberto o fluxo de exportação de fertilizantes para a agropecuária brasileira. Em sentido contrário, em 2020, as exportações do Brasil para a Rússia geraram uma receita de 1,52 mil milhões de dólares, sendo que mais de 90% do que os russos compraram dos brasileiros foram produtos agropecuários, sobretudo carne bovina. Os dois países têm ainda parcerias nas áreas aeroespacial e de defesa militar.

Por outro lado, outra motivação de Bolsonaro apontada pela imprensa é responder ao recente périplo pela Europa do candidato presidencial Lula da Silva, recebido com honras de chefe de estado em França e na Alemanha, por exemplo.

Mas como um militar e deputado de extrema-direita no Brasil, como Bolsonaro, e um ex-espião do KGB soviético, como Putin, se tornaram politicamente próximos? “O que os une é muito menos afinidades políticas naturais e muito mais o isolamento internacional de ambos, é um casamento de conveniência”, afirmou ao DN Vinícius Vieira, especialista em relações internacionais.

Para o académico, entretanto, “na sequência de Putin ter elogiado a masculinidade de Bolsonaro e de este ter retribuído as amabilidades, notam-se, de facto, conexões entre eles”. “Ambos são nacionalistas, ambos veem o estado como meio de ajuda aos amigos mais próximos, seja a oligarquia russa, seja às milícias brasileiras, além de ambos revelarem um conservadorismo nos costumes centrado no homem branco e cristão e com mensagens de intolerância contra homossexuais e outras minorias”, continua Vieira.

RELAÇÕES HISTÓRICAS

Historicamente, o Brasil foi o primeiro país da América do Sul com o qual a Rússia estabeleceu relações diplomáticas, em 1828, conforme recorda João Paulo Charleaux em artigo do jornal Nexo. Mas foi em 2002, no fim do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, década e meia depois a redemocratização no gigante sul-americano e uma década após a Perestroika, que a relação passou à condição de “parceria estratégica”, aprofundando trocas nos campos comercial, científico, cultural e, principalmente, aeroespacial e militar.

Nos dois governos seguintes, de Lula, tanto Brasil como Rússia passaram a integrar, juntamente com a China, a Índia e a África do Sul, um bloco alternativo às grandes potências ocidentais, batizado de BRICS, acrónimo formado pelas iniciais dos cinco países em inglês e que soa como a palavra “tijolos” naquele idioma.

O objetivo dos cinco era aumentar o protagonismo de cada um e reivindicar maior espaço para o chamado “Sul Global”. O bloco criou mesmo o seu banco, Novo Banco de Desenvolvimento, para competir com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, em 2014, mesmo ano da crise da Crimeia, génese do atual problema entre russos e ucranianos.

Como recorda Vinícius Vieira, “foi nessa altura que a presidente Dilma Rousseff abriu um precedente grave ao relativizar a crise na Crimeia para manter o grupo BRICS coeso na criação do banco, uma visão de curtíssimo prazo que abre espaço agora à atitude semelhante de Bolsonaro”.

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